Outra vez essa chuva que não sei se vem do céu ou de dentro de mim. Cada gota é uma lágrima estúpida, uma lembrança agridoce que açoita minha pele – sangro até a morte na esperança de renascer nos seus braços (mas seus braços jamais me acolherão, porque você não quis renascer nos meus).
Você se lembra daquele beijo? Chovia. Exatamente como hoje. Naquela noite nossos corações trovejaram a sentença de morte enquanto os lábios selavam uma fração de vida. Chovia muito e eu chorei em silêncio o meu escândalo.
Eu poderia ter erguido meu cálice e brindado com meu sangue o seu êxtase. Poderia ter erguido montanhas e altares para oferecer-lhe minha carne em sacrifício. Ou quem sabe até mesmo ter criado o mundo em sete dias, sete noites, sete vidas – ainda assim não seria o bastante. Nunca é o bastante.
Sei que é você. Solidão que toma forma no delírio da minha insônia. Sei que é você que me sorri na tela inútil da televisão na madrugada. São seus os braços que se abrem zombando dos meus lençóis vazios da quarta-feira. É seu o riso insano que a chuva derrama sobre os telhados noite adentro.
Daqui a pouco deve amanhecer. Tem que amanhecer. Levarei flores para você. As últimas. De plástico. Iguais aos sonhos que seus olhos de neon me venderam um dia.
segunda-feira, 21 de julho de 2008
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