segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Cansaço

Não venha me falar sobre o seu dia ou sobre sua noite mal dormida. Não me interessam seus sonhos; não pertenço aos seus pesadelos. Não me conte seus planos. Não há nada que eu possa fazer para sabotá-los, tampouco quero trabalhar a seu favor.
Já estou aqui há tempo demais; não pertenço a este ou a qualquer outro lugar que você conheça. Estou de saída e dispenso sua despedida.
Não quero saber o que sua mão direita omitiu à esquerda. Poupe-me da sua caridade de fim de semana. Não me honre com sua castidade ou sua entrega. Não quero saber quantos se servem de você. Se você faz tanta questão de me oferecer alguma coisa, que seja o seu silêncio, a sua morte a cada segundo, seu desprezo.
Você diz que me conhece melhor que eu mesma. Você quer viver através de mim. Você quer que eu seja você e me arrependa dos seus erros. Você quer que eu conserte seu passado despedaçado. Você me cobra um futuro que é seu. Acontece que a minha dor é só minha. O meu gozo é só meu. Minha vida deveria ser só minha. Não suporto mais ver você nos meus espelhos. Devolva-me o meu reflexo, o meu inferno, o meu paraíso. Deixe meus sonhos em paz. Deixe meus pesadelos debaixo do meu travesseiro. Nada aqui pertence a você.
Não faça essa cara de vítima. Não vou assumir o papel do carrasco mais uma vez. Não ofereça seu rosto ressentido à agressividade da minha mão. Não tente me comover com essas lágrimas fáceis. Não vou prostituir meu interesse à sua mágoa. Nunca quis você acima ou abaixo de mim. Se não pode estar exatamente ao meu lado, faça-nos o favor de sumir.
Já é tarde, eu sei. Não é hora para se falar dessas ou de outras coisas; talvez nunca seja a hora para se falar de certos assuntos. Vai ver é só um delírio meu, como sempre. Vai ver você tem razão. Como sempre.

domingo, 3 de agosto de 2008

Segredo

Nunca gostei de caminhar sob o sol. Mas, às vezes, grandes prazeres nos custam pequenos sacrifícios, e é por isso que me disponho a percorrer ruas e avenidas sem fim antes que a noite venha acertar contas antigas comigo.

Sei que, a essa hora, ela já deve ter lavado as louças do almoço. O marido deve estar assistindo ao último bloco do noticiário esportivo na televisão enquanto ela apressa as crianças. Pede a ele que as deixe na escola, não está disposta a sair de casa por causa do calor. O marido concorda com qualquer coisa que ela diga enquanto ouve o resultado da última partida de seu time de coração. Ela sorri, mas ninguém vê.

Sigo pelas ruas do centro da cidade, coalhadas de gente, mas ninguém me percebe. Melhor assim. Não me interessa que os passantes notem minha presença. Logo alcanço o bairro residencial e aquela onda de pessoas se transforma numa ilha de paz.

Debruçada na janela, ela traga um cigarro barato comprado de manhã, junto com o pão. Os dedos longos, com unhas bem pintadas de um tom de rosa incomum, conduzem mecanicamente o filtro amarelo aos lábios.

Ela me espera, e ninguém mais sabe disso. Dentro de alguns segundos, ela acenará discretamente para mim, indicando a porta previamente destrancada. Eu entrarei e, sem que nenhuma palavra seja dita por mim ou por ela, seremos tomados pela luxúria vespertina e habitual. Eu sequer perceberei o cheiro do cigarro em seus cabelos; talvez ela sinta meu hálito de wisky. É provável que alguém nos observe pela janela entreaberta, mas não nos importaremos. Não há tempo para essas preocupações pudicas. Não há tempo para mais nada senão para o nosso gozo secreto, sagrado. Eu me vestirei sem pressa ou remorso. Ela me observará sem revolta ou paixão. Ganharei novamente a rua e ela terá ganhado seu dia.

Ela agora está a poucos metros de mim, já posso ver seu busto firme sobre o parapeito. Consigo distinguir suas feições com cada vez mais clareza, e isso me perturba um pouco. Num movimento brusco, ela joga o toco de cigarro na rua e olha em minha direção. Tento desviar o olhar, mas é tarde demais. Ela fixa o olhar em meu rosto por um momento ínfimo, criando uma intimidade que jamais tivemos. Passo por sua janela enquanto ela fecha as cortinas.

Mais adiante, em uma outra janela, uma moça loira tamborila dissimuladamente os dedos sobre o parapeito. É um sinal secreto para mim. Mas isso ninguém nunca vai saber.

Pilar

Tenho medo dos santos que me vigiam nas igrejas. Tenho medos das mãos inertes de um gesso tingido de sangue e fé dos que deixam esmolas e velas e rezas. Tenho medo do olhar coercitivo do alto do altar.

No confessionário, os ouvidos de um homem igualmente pecador se alimentam dos relatos dos que buscam algum tipo de redenção instantânea. Não entendo por que Deus precisa de intermediários. Não entendo esse perdão dado em troca da simples auto-delação.

Ainda recém-nascida, mergulharam-me na pia batismal para me livrar do pecado original. Alguns anos depois, catequizaram-me como fizeram aos índios, e esfolaram minha crença natural. Deus entrou no meu corpo pela hóstia que me mandaram engolir sem mastigar. A Igreja é santa; o Papa decreta o pecado; tem que rezar o terço; não pode comer carne na Sexta-Feira da Paixão. Engoli sem mastigar.

Os santos me vigiam de cara feia. Tenho medo. Uma velha repete uma infinidade de ave-marias sem pensar. Não sei se devo sair daqui agora. Será que ela rezaria por mim? Não consigo rezar como me ensinaram. Converso com Deus a meu modo, não sou boa para decorar rezas. As ladainhas me enlouquecem. Tenho medo.

Debaixo das tábuas estão enterrados os ricos. Os pobres que se juntem à terra. Na hora da missa, os pobres pisam o túmulo dos abastados numa revanche inconsciente. Jesus foi pobre. Não entendo por que a Igreja gosta tanto dos ricos.

No teto, há um cordeirinho sobre a cruz. Se eu me mexer, ele vai para debaixo dela. Não quero perturbar o cordeirinho. Ele me observa em paz, não tenho medo dele. Fico quietinha. A velha foi embora. Ninguém reza por mim. Mas o cordeirinho me observa em paz.

Quero chorar, mas minhas lágrimas não são bonitas como as contas de cristal que pendem do teto. Tenho vergonha do meu choro fosco. A igreja é cheia de ouro, não quero manchá-la com meus pecados tolos.

Daqui a pouco é hora da missa. Muita gente vem rezar, e eu acho isso tão bonito. Quando eu era criança, minha avó sempre me levava à missa. A igreja ficava cheia e eu passava mal. Agora a igreja ainda está vazia e não me sinto bem. Os santos me censuram. Quero ficar perto da minha avó. Quando ela reza, fecho os olhos e me sinto tão bem. Minha avó fala direto com Deus. Mas ainda gosta do que o padre diz.

Meu Deus, me deixa ser índia outra vez.

Partida

Não sei dizer se tranquei a porta, ou se sequer a fechei. Minha partida era urgente. Tardia, é verdade, mas urgente como nunca coisa alguma foi em minha vida. Eu só queria deixar para trás tudo aquilo que não existia mais em mim.

A noite ardia em meu rosto. A vontade de arder em seu corpo me consumia a cada passo. Não avisei que iria, mas sei que ela me receberá. Ela tem que me receber. Há oito anos ela esperava por este momento. Há oito anos ela tentava me despertar. Que bom que ela não desistiu. Não suportaria não tê-la agora.

A mala pesa tal qual meu remorso por não ter partido antes. Queria ter tido força para abraçá-la quando seu corpo me chamava em silêncio. Queria ter tido a hombridade de assumir minha fraqueza em face deste amor tão devotado. Mas sua força e paciência me trouxeram até aqui. Ela sempre foi minha. Finalmente posso me doar com a mesma ternura e abdicação.

As esquinas me atormentam. Tentam me confundir. Mas nada me desviará do nosso destino. Um táxi quase me atropela quando atravesso a rua no quarteirão da sua casa. Maldito! Mas nada será capaz de atravessar nosso caminho agora.

Toco a campainha. Por que não me atende? Insisto. Sem resposta, lanço contra a porta toda a minha agonia. Grito seu nome. O que fazer para que me ouça? Ela sempre adivinhou meus pensamentos, será possível que não percebe minha presença? Um vizinho, irritado com o meu desespero, acaba de me informar que ela partiu há pouco. Não sabe para onde ela foi. Não sabe se voltará. Por que não me esperou? Por quê?

Recordo cada palavra que ela me disse, cada gesto que me dirigiu, cada beijo que abençoou meus lábios. Um dia, ela me disse que vivemos em uma outra dimensão. Que há um lugar só nosso, imaculado. Ela disse que nosso amor não é deste mundo. Mas eis que estou aqui, neste mundo, e preciso estar com ela. Só me resta esperar que ela desista de partir. Estarei aqui, à sua porta, esperando que um carro desses que cortam a madrugada a devolva para a vida que deveria começar agora.

Escolha


Reviu pela última vez as fotos. Deixou-as de lado. Quis telefonar para ela, pedir um conselho, perguntar pela tarde que caía, ouvir sua voz de anjo, dizer que estava a caminho, ficar em silêncio. Vasculhou o quarto para se certificar de que nada ficava para trás. Pensou em pegar uma foto, aquela em que sorria ao lado do menino.

Quis se desfazer das cartas. Abriu um por um os envelopes. Releu cada palavra. Quis telefonar para ele, dizer que ainda estava lá, perguntar como foi o dia, ouvir sua risada fácil, falar coisas sem compromisso com a razão. Recolheu as cartas. Guardou-as novamente. Desejou ter ao menos uma fotografia.

O menino dormia, melhor assim. Desejou que tudo não passasse de um sonho ruim. Quis a serenidade da criança adormecida. Quis adormecer e não mais despertar.

Não conseguia odiá-lo. Desejou que o amor adormecesse. Queria adormecer e despertar ao lado dele. Queria apenas adormecer ao seu lado.

Sentia-se esgotado. Precisava das mãos dela, da calma que só ela desenhava com os dedos em seu rosto, do gosto de beijo roubado que ela pintava nos lábios. Precisava dela. Pertencia a ela. Sentiu-se estúpido por tê-la deixado partir aquela noite. Devia ter dito a verdade. Devia ter confessado sua fraqueza. Ela merecia mais que um beijo.

Lembrou-se do último encontro. Quis saber a verdade, mas não havia nenhuma verdade a ser dita. Não conseguia compreender aquele amor que ele declarava mas não vivia. Tentou fugir antes que se ferisse ainda mais. Não pôde fugir do beijo terno que ele derramou sobre seus lábios ante a lágrima que não pôde conter. Quis partir sem olhar para trás. Quis partir noite adentro sem ter que amanhecer.

Sentiu-se estranhamente liberto ao abrir a porta. Aos poucos, os passos vacilantes ganharam ritmo e traçaram o caminho já conhecido. Percorreu os quarteirões com sofreguidão, a despeito do peso das malas e das mágoas que trazia consigo. Certamente ela estaria em casa. Ela tinha que estar em casa, a casa à qual ele sempre pertencera.

Chamou um táxi. Vasculhou o quarto para se certificar de que nada ficava para trás. Pensou em levar as cartas. Sentiu-se sobremaneira vazia ao deixar a casa tão cheia de recordações. Deixou que o motorista acomodasse as malas no veículo. Partiu sem se despedir da casa que ele nunca habitou.


Era tarde quando um táxi dobrou a
esquina e quase atropelou um homem
que corria, cheio de bagagem.
A passageira não percebeu
a iminência do acidente,
porque estava totalmente
absorta na conferência de sua passagem.