segunda-feira, 21 de julho de 2008

Elizabeth

Não deve ser tão difícil. Difícil foi decidir. Mas agora que já sei o que quero, a parte mais fácil será fazer. Mas há de ser em grande estilo. Passar despercebida nessa hora? Deus me livre! Também tenho direito aos meus quinze minutos de fama. Serão meus últimos minutos, mas ao menos serão lembrados por gerações.

Coisa piegas é escrever a tal carta. Quando encontram o corpo de um suicida, já passam batido por ele em busca da carta. A carta acaba tendo mais destaque que o defunto. Querem saber logo de quem foi a culpa. Enquanto mosquitos vasculham a pele ainda morna do corpo jacente, um bando de curiosos revira o cenário desesperadamente, atrás da portadora oficial da derradeira revelação. Não quero que isso me aconteça. Mas é preciso que todos saibam de quem é a culpa. Tenho que encontrar uma forma de fazer isso.

Também quero que tenha uma música de fundo. A música que será lembrada por todos como a trilha sonora da minha partida. As grandes cenas dramáticas do cinema sempre vêm acompanhadas de uma música. Tudo bem, minha vida não é nenhum filme, mas quero que as pessoas se lembrem do meu drama toda vez que ouvirem a música. Talvez uma música instrumental. Moonlight Sonata, de Beethoven, cairia bem. Mas o povo é desprovido desta cultura, pouquíssima gente ouve Beethoven – nunca serei lembrada. Talvez eu devesse escolher algo, digamos, mais popular. Mas quem consegue imaginar um suicídio sendo cometido ao som de um funk? Ou, pior, um suicida dançando seus últimos passos de axé antes de se jogar do alto do prédio? Prefiro partir em silêncio a me submeter a esse tipo de cena, coisa grotesca.

Música, cenário, carta... Esses são detalhes que posso resolver depois. A prioridade agora é definir como. Overdose de algum antidepressivo? “Já estava neurótica, olha as caixas de remédio. Tudo tarja preta, coisa pra doido”. Melhor não. Dar um tiro na cabeça. Assim não tem erro, morte rápida, sem tempo pra sofrer. Mas meus cabelos tão bem cuidados, minha pele de pêssego... “Olha o tamanho do buraco que a bala fez! Tem pedaço de cabeça pra todo lado”. Estragar tudo isso e ser velada em caixão fechado? Há de haver outro jeito. E se eu tomasse uma boa dose de veneno pra ratos? “Cruzes, veja quanta espuma saía de sua boca! Parece uma cadela raivosa”. Nem pensar, ser comparada a uma cadela. Raivosa sim, mas cadela nunca. E se eu me enforcasse? Acho que o lustre da sala de jantar está bem firme, pode suportar meu peso. Aliás, ser magra tem suas vantagens nessas horas. Pensando bem, acabo de me lembrar das aulas de Medicina Legal. Olhos estatelados, língua roxa... Preciso de um outro plano. Quem sabe então... Saltar do prédio mais alto da cidade! Trinta e poucos andares, acho que é o suficiente. Bem na hora do rush. Público estimado de duas mil pessoas. Perfeito. Salto de braços abertos e caio na calçada. Olhos esbugalhados, cabeça estourada, braços e pernas num trágico desarranjo. E os outros se desviando de mim, enquanto alguns moleques pisam meu sangue para arrancar minhas jóias. Não, não quero ser lembrada assim. Credo.

Quer saber de uma coisa? Desisto. Nunca imaginei que morrer desse tanto trabalho...

Rendição

Pode perguntar a qualquer um que a conheceu na juventude: era a moça mais bela da cidade. Hoje, poucos a reconhecem.

Os cabelos embranquecidos estão por toda a casa, fios prontos para tecer histórias das quais ela não deve querer de lembrar. Há tempos o manto prateado cobriu-lhe as faces, renunciando a toda cor que um dia habitara seu semblante.

Os ombros um pouco curvados parecem ainda carregar um peso que não é mais seu; o passado pesa-lhe feito uma casa em escombros que um dia chamou de lar. A cada dia curva-se um pouco mais – parece reverenciar o sofrimento que cultiva cuidadosamente.

Ela se entrega às dores físicas que jura sentir. Diz que reza pedindo alívio. Sua religiosidade se satisfaz com a missa televisionada e as imagens de santos mantidas no quarto desarrumado.
Não usa mais nenhuma maquiagem. O último frasco de xampu foi jogado fora porque venceu sem sequer ter sido aberto. Um creme para os pés jaz no armário do banheiro. A escova de dentes eventualmente tem utilidade.

Ela é bela, mas parece ter se esquecido disto. Bela e amorosa. Guerreira que venceu tantas batalhas e parece ter se esquecido disto. Vencedora. Por que se render agora? A guerra já acabou; não há mais miséria ou tortura. Por que se render justo agora?

Ela desliza pela casa, sussurrando. Suas preocupações se resumem ao preço do feijão e do gás que ela não compra, dos remédios que não quer tomar. O filho mais velho encarrega-se de prover a casa de tudo o que é justo e necessário. O médico vai mensalmente visitá-la em vão – está trancada em seu quarto-mausoléu e não está para ninguém.

A filha tenta em vão resgatar a feminilidade do lar. Comprou-lhe os mais variados utensílios, na esperança de que todo aquele arsenal culinário lhe trouxesse outra vez a vontade de ser a verdadeira dona da casa.

Tudo é em vão. A vida vai deixando a casa, sorrateira. Aos poucos, as plantas morrem. O diálogo morre. Os sorrisos morrem. A paciência morre. O amor resiste. A vontade resiste. A vida não espera. Mas ela devia querer saber disto.

Fim

Hordas de alienados. Lá vão eles pelas ruas rumo à enseada. A maioria veste branco sem saber o porquê. Talvez as mulheres acreditem que, porque viram as vitrines pálidas, então deveriam se vestir assim. É a moda, é a maldita moda. A mesma moda que fez milhares de meninas morrerem de inanição. Malditos sejam todos os estilistas do mundo. Malditas sejam as passarelas e os que nela pisam. Mas de que adianta amaldiçoar agora? Tudo caminha para o Fim e esses imbecis sequer se deram conta disso. Não é apenas o fim de mais um ano, será que não percebem?

Eu tentei avisar a todos, mas não me ouviram. Acham que estou louca, acham que estou louca! Riram de mim, riram às minhas custas, pelas minhas costas ou descaradamente. Imbecis! Eu agora os vejo pela janela, bando de mortos-vivos. Uns grupos seguem em procissão, carregando oferendas inúteis a divindades inoperantes. Outros, arruaceiros, espalham seu hálito de álcool e bestialidade por onde passam. Famílias inteiras. Famílias despedaçadas. Familiares deserdados. Desertores de todo gênero. Todos andando na mesma direção. Parecem em transe. Só querem saber de ver os fogos na praia, mas são incapazes de perceber o fogo que consome o mundo e a cada um deles.

O telefone não pára de tocar. Que se dane o telefone e o idiota do outro lado do fio. Deve ser aquele otário a quem me conduziram mês passado; disseram que ele era um ótimo médico e poderia me ajudar. Já ligou dezenas de vezes esta semana, o coitadinho. Coitadinho! Pensa que vou engolir sua bondade e suas pílulas. É mesmo um coitado que se veste de branco o ano todo e agora deve estar com outros de sua laia na sacada de um hotel de luxo. Exibicionistas de merda! Seu dinheiro não vai impedir seu fim.

Se eu ficar aqui, bem quietinha, junto com minhas coisinhas, será melhor. Mas não verei aqueles (des)crentes com cara de bunda quando o Fim chegar. Acho que vou descer e acompanhá-los em seu cortejo fúnebre inconsciente. Não vou me vestir de branco como eles. Nem de preto, como seria próprio para a ocasião. Vou exatamente como estou agora: nua. Não precisarei exibir vestimenta alguma para o Fim. Ele já me tem assim, de corpo e alma nus. E ele me ama e me escolheu como seu arauto. Os outros não sabem disso, mas sou sua favorita. Não serei poupada, porque quero me imolar. O Fim me merece tanto quanto eu o mereço. Logo seremos um só.

A multidão me absorve feito um grão de poeira. Uns velhos se escandalizam com minha nudez. Rio alto. Agora é minha vez de rir de vocês, que não me ouviram. Desgraçados! Eu sei o que vai acontecer, eu sei o que vai acontecer! Loucos são vocês, desgraçados! Sigo protestando em silêncio contra tudo deste mundo falido.

Sei que não haverá nenhuma explosão, maremoto ou coisa parecida. Será como o apagar de uma luz. Como se o planeta fechasse os olhos e não mais os abrisse. Rápido, surdo, indolor. Feito o despertar de um sonho. Isso mesmo, estamos todos mortos e sonhamos com a vida. Despertaremos em poucos minutos. Voltaremos à nossa condição de nada. Nada. É isso que somos.

Contagem regressiva. Um rebanho inteiro desgarrado é o que vejo. Pensam que haverá uma nova chance, um ano novinho em folha para limparem suas fichas. E depois a louca sou eu! Cinco... Quatro.. Três... Vou fechar os olhos. Até nunca mais.

Etéreo

Outra vez essa chuva que não sei se vem do céu ou de dentro de mim. Cada gota é uma lágrima estúpida, uma lembrança agridoce que açoita minha pele – sangro até a morte na esperança de renascer nos seus braços (mas seus braços jamais me acolherão, porque você não quis renascer nos meus).

Você se lembra daquele beijo? Chovia. Exatamente como hoje. Naquela noite nossos corações trovejaram a sentença de morte enquanto os lábios selavam uma fração de vida. Chovia muito e eu chorei em silêncio o meu escândalo.

Eu poderia ter erguido meu cálice e brindado com meu sangue o seu êxtase. Poderia ter erguido montanhas e altares para oferecer-lhe minha carne em sacrifício. Ou quem sabe até mesmo ter criado o mundo em sete dias, sete noites, sete vidas – ainda assim não seria o bastante. Nunca é o bastante.

Sei que é você. Solidão que toma forma no delírio da minha insônia. Sei que é você que me sorri na tela inútil da televisão na madrugada. São seus os braços que se abrem zombando dos meus lençóis vazios da quarta-feira. É seu o riso insano que a chuva derrama sobre os telhados noite adentro.

Daqui a pouco deve amanhecer. Tem que amanhecer. Levarei flores para você. As últimas. De plástico. Iguais aos sonhos que seus olhos de neon me venderam um dia.

Desejo

Porque era noite de sábado, ele veio. Chegou sem o fulgor da primeira vez, com um sorriso meio desfeito no canto da boca e o mesmo hálito de leite servido pela mãe. Gostaria que ela tivesse me visto assim, no momento em que abri a porta. Ela decerto recomendaria a minha excomunhão, mas não tem influência ou tempo suficiente para isso. Está ocupada demais agora preparando a casa para mais uma reunião anual dos parentes.

Não esquecerei a sua expressão de desgosto ante meu lingerie preto. Seus olhos mortificados condenaram-me ao fogo do inferno enquanto meu corpo ardia feito as velas que crepitavam pela casa. Sorri com uma timidez ensaiada, mas não fiz a menor menção quanto a cobrir o corpo, o que o deixou confuso, e isso me fez arder ainda mais. Eu me despia de todos os pensamentos enquanto ele tirava seu casaco e seguia para a cozinha. Era sempre assim, e sua previsibilidade tornou tudo mais fácil para mim.

A mesa estava meticulosamente posta para nosso jantar de aniversário. Ele pediu que eu me vestisse, mas ignorei sua voz hesitante. Acomodei-o à mesa e servi-nos a melhor refeição que compartilháramos em todos esses anos. Ele comia devagar, mastigando bem cada porção. Bom menino. Não havia pressa alguma. Eu queria mesmo aproveitar cada minuto daquela noite perfeita. Acho que ele falava sobre alguma coisa sobre um novo programa de computador, mas eu só conseguia registrar os movimentos suaves de seus lábios e mãos, como se tudo estivesse em câmera lenta e sem som. Perguntei se o jantar estava a seu gosto, e ele respondeu que sim; disse a ele que a sobremesa seria servida no quarto e ele disse que preferia comer ali mesmo. Ignorei-o mais uma vez. Levantei-me e disse que havia lhe preparado uma grande surpresa. Seu espírito de menino o traiu, e ele me seguiu feito criança, segurando a minha mão.

Empurrei seu corpo magro contra a cama e lancei-me sobre ele. Beijei sua boca macia lentamente enquanto alcançava as algemas sob o travesseiro. Prendi seus punhos finos sem grande dificuldade. Ele tentou se levantar, mas não conseguiu se desvencilhar do meu corpo. “Acalme-se, meu bem; estamos só brincando, não acontecerá nada que eu sei que você não gosta”. Não, não faria sexo como ele. Dei minha palavra. Ele me chamou de louca e achou melhor brincar comigo.

Busquei uma pequena caixa. Sim, eram meus brinquedos. Plumas, loções, massageadores... Não, não quero usá-los hoje. Retirei uma pequena navalha. Sentei-me sobre o seu quadril. “Calma, querido, não há o que temer”. Rasguei suas roupas. O som de pano rasgando me entorpecia e eu ria e batia palmas. Um dia me disseram que cortes de navalha não sangram. Seria verdade? Cortei seu mamilo. Que coisa, saiu um pouco de sangue. Acho que ele gritava, mas novamente aquela sensação de slow motion me possuiu. Cortei seu peito mais duas ou três vezes. O sangue brotava e parecia mudar de cor num espectro curioso e vivaz. Passei a navalha por sua virilha e aquele líquido furta-cor escorreu lento e viscoso. Eu ria alto, cada vez mais alto; meu riso histérico e libertino se juntava ao choro distante dele. “Chega de brincar”, eu disse. Retirei da caixa um punhal. Ergui-o triunfante sobre seu peito. “Adeus, querido”, eu murmurei. A lâmina começava a transpor sua pele quando um barulho estridente me desconcentrou totalmente... O despertador sempre toca nessas horas.

Crise

Por que não simplificamos as coisas? Já sabemos como isso vai terminar... Corrija-me se eu estiver errada.

Você não dormirá. Ficará se virando de um lado para outro na cama, remoendo tudo o que não foi dito ou feito antes de nos deitarmos. No meio da madrugada, você se levantará. Abrirá o guarda-roupa. Pegará algumas peças furiosamente, e certamente a escolha não será ao acaso. Eu acordarei com o ruído da sacola. Ainda sonolenta, me sentarei na cama e perguntarei o que está acontecendo. Claro que eu já sei. Mas não me acorrerá nada melhor para começar a conversa. Passaremos alguns minutos, talvez até mesmo horas, discutindo nossa aparente falta de tempo, a falta de dinheiro, a falta de problemas. Você sairá dramaticamente de casa. Eu chorarei até que amanheça.

Você voltará para a casa da sua mãe e eu voltarei para o colo da minha. Durante dias, seu cheiro almiscarado, impregnado no quarto, me enlouquecerá. Seus olhos de absinto me seguirão pelas ruas em rostos desconhecidos. Sua boca não beberá o café forte que farei em excesso todas as manhãs. Minhas amigas terão que suportar minhas crises de choro no meio de um dia cheio de trabalho.

Você ouvirá todos os seus discos. Relerá toda a sua coleção de revistas de futebol e sacanagem. Discutirá com sua mãe porque ela não faz o café ao seu gosto. Estranhará a cama de solteiro. Sentirá falta do meu perfume no travesseiro. Mas ainda assim fingirá uma pontinha de prazer ao contar para os amigos que abandonou a megera com quem se casou.

Eu telefonarei para você. Você não me atenderá. Eu tentarei ligar para algum homem interessante, cujo telefone me será dado por alguma amiga solteira. Desligarei antes que ele atenda. Você telefonará para meia dúzia de mulheres, mas talvez nem as encontre – bastará saber que estão todas lá, à sua disposição. Afinal de contas, não sou a única mulher no mundo.

Depois de uma semana, mais ou menos, cansados de fingir que podemos viver sem o outro, marcaremos um encontro em um restaurante. Eu irei com um vestido recatado e a maquiagem impecável. Você irá muito bem barbeado, vestindo aquela camisa que eu adoro. Conversaremos com uma formalidade ensaiada. O almoço terminará na nossa cama. Você voltará para casa e viveremos felizes para sempre. Ou até a próxima crise.

Percebe quanto tempo perdermos? Quanto desgaste! Ao invés de cumprir todo este roteiro, sugiro que passemos logo ao final. Vamos deixar essa bobagem de lado. Venha para a cama, ande logo. Aposto que temos coisa melhor a fazer do que discutir o que quer que seja.

Coletivo

Quarenta pessoas. Talvez um pouco mais, por causa do horário. Um amontoado de gente se espremendo dentro do coletivo.

Cabelos naturalmente pretos, castanhos, loiros e ruivos juntam-se a outros cujas cores é impossível definir desde a invenção das tinturas. Cabelos secos, molhados, oleosos. Quilos de caspa. É possível que haja piolhos.

Cada cabeleira emoldura um rosto estranho. Faces igualmente compostas por um par de olhos, nariz e boca, mas com feições únicas, indecifráveis. Alguns rostos não foram lavados esta manhã. Outros são demasiadamente maquiados todas as manhãs. Sardas, manchas, espinhas, cicatrizes. Pêlos brotando de ouvidos e narizes. Dentes limpos, dentes sujos, dentes cariados. Bocas sem dentes. Cheiro de bala de menta. Mau hálito.

Os corpos se tocam intencionalmente ou não, dependendo da índole dos passageiros e do movimento do veículo. Corpos jovens e velhos, femininos e masculinos. Aglomerados de células carregando um número incontável de vírus, bactérias e fungos, que promovem entre si um intercâmbio voraz. Cheiro de perfumes, loções, desodorantes, suor, urina, flatos. Cheiro de gente.
Dezenas de mãos disputam um lugar nas barras. Mãos calejadas, sujas e limpas, pequenas, grandes. Umas, cheias de anéis. Outras mostram marcas de alianças tiradas momentaneamente ou para sempre. Centenas de unhas. Micoses, esmaltes, sujeira, cera de ouvido, pele de amantes.

Uns dormitam com as cabeças apoiadas nos vidros sujos das janelas. Um homem deixa a passageira próxima perceber sua ereção. Uma mulher sentada oferece seu decote inoportuno. Um casalzinho se beija no banco de trás. Alguns seguem calados. Uma criança chora. Velhos rezam e resmungam. Alguém fala ao celular. Um grupo de jovens conversa alto sobre qualquer coisa sem importância. E a Babel segue, sacolejando avenida afora.

Aguardo sua chegada junto a mais uma dúzia de indivíduos. À medida em que o ônibus se aproxima, formamos uma fila por ordem de chegada ao ponto – pode ser que não haja lugar para todos. O motorista pára um pouco adiante, desorganizando nossa pequena sociedade. Alguns descem indiferentes. Outros parecem aliviados. Subo com dificuldade e tenho que me contentar com um espaço ínfimo nos degraus do coletivo. Compreendo a indignação de uma pessoa que ouvi dizer que jamais adentrará novamente aquela jaula sobre rodas. Mas, afinal, sou só mais um exemplar desta espécie de bicho.

Amanhecer

Despertou serena como despertam as flores amadas pelo sereno. Sentiu os primeiros raios de sol acariciando-lhe a pele pela cortina entreaberta, que dançava ao sabor da brisa de primavera. Desabrochou um sorriso enquanto se espreguiçava entre os lençóis rosados.

Levantou-se da cama sem a pressa cotidiana. Flutuou pelo quarto rendido ao seu semblante – chegava ao fim a lamúria das paredes, o lamento dos rodapés, o desalento do tapete macio, que agora amparava tão-somente aquela dança matinal.

De repente não havia mais relógios, calendários, agendas, campainhas, telefones, compromissos ou comprometimentos. Havia apenas o banho morno, acolhedor; havia as gotas cristalinas mimando seu corpo, a docilidade de suas mãos reconhecendo o rosto, o colo, o ventre, os pés.

Escovou os cabelos com calma maternal. Reviveu cada minuto da noite anterior (teria sido um sonho?), saboreando outra vez cada gesto, cada palavra, cada gole do vinho tinto meticulosamente escolhido para a ocasião. Corou ao relembrar a intimidade do olhar.

Não pôde resistir ao convite do espelho que lhe fitava a exuberância. Viu-se outra vez menina, escolhendo um batom para pintar seu dia, distinguindo suas formas sob o roupão macio, fazendo despertar a divindade adormecida. Viu-se outra vez mulher, brincando por quintais imaginários, roubando frutas inventadas por seu paladar infante, brincando de roda com a vida.

A casa tornou-se incrivelmente iluminada. Brotaram cores de todos os cantos, derrubando o reboco soturno do inverno. Seu riso preenchia cada cômodo, enquanto ela girava com os braços erguidos pelo corredor.

Naquela manhã, ela nascia outra vez. Lá fora, os carros corriam, os prédios se enchiam, as multidões se formavam e se dissipavam, as ruas continuavam a abrigar a miséria, crianças choravam, adultos praguejavam – mas nada disso importava naquela manhã. Ela nascia outra vez. Só porque brilhara nos olhos de alguém.

Palavras

Não me peça desculpas. Não se explique. Não me pergunte sobre o meu dia. Não me faça elogios. E se acaso eu lhe fizer alguma pergunta, me responda sem palavras.

Hoje quero conversar com o seu silêncio. Quero a palavra não dita. Quero a voz da pele, a súplica dos poros, o canto do cheiro. Não precisamos de palavras quando nossos enigmas pedem solução natural, muda, definitiva.

Deixe que suas mãos se entendam com as minhas. Deixe que elas se guiem. Deixe que se percam. Que nossos dedos se rendam gentis e teçam juntos a bela renda da nossa madrugada sem fim. Que nossas unhas demarquem caminhos e paragens. Não quero saber o que lhe agrada. Deixe que seus pêlos eriçados me contem. Ouça minha pele clamando pela sua.

Quero descrever minha alegria num beijo, feito menininha levada. Quero apenas ser levada. E não quero ser perguntada para onde. Quero ouvir a música que vem de você. Quero dançar com as borboletas que voarão do meu corpo ao seu toque. Quero tocar o céu.

Quando chegar a hora de partir, não se despeça. Não direi adeus, tampouco. Não nos falaremos ao telefone, porque as palavras parecem fazer troça da minha falta de jeito nesses momentos convencionais. Sou uma muda decidida. Mas estou certa de que minha pele continuará indefinidamente sussurrando aos seus ouvidos e seu cheiro me chamará a todo instante. São essas as nossas vozes, meu amor.


(Texto publicado no Jornal Cultural "Conhece-te a ti mesmo", edição nº 89 - julho/2008)