segunda-feira, 21 de julho de 2008

Palavras

Não me peça desculpas. Não se explique. Não me pergunte sobre o meu dia. Não me faça elogios. E se acaso eu lhe fizer alguma pergunta, me responda sem palavras.

Hoje quero conversar com o seu silêncio. Quero a palavra não dita. Quero a voz da pele, a súplica dos poros, o canto do cheiro. Não precisamos de palavras quando nossos enigmas pedem solução natural, muda, definitiva.

Deixe que suas mãos se entendam com as minhas. Deixe que elas se guiem. Deixe que se percam. Que nossos dedos se rendam gentis e teçam juntos a bela renda da nossa madrugada sem fim. Que nossas unhas demarquem caminhos e paragens. Não quero saber o que lhe agrada. Deixe que seus pêlos eriçados me contem. Ouça minha pele clamando pela sua.

Quero descrever minha alegria num beijo, feito menininha levada. Quero apenas ser levada. E não quero ser perguntada para onde. Quero ouvir a música que vem de você. Quero dançar com as borboletas que voarão do meu corpo ao seu toque. Quero tocar o céu.

Quando chegar a hora de partir, não se despeça. Não direi adeus, tampouco. Não nos falaremos ao telefone, porque as palavras parecem fazer troça da minha falta de jeito nesses momentos convencionais. Sou uma muda decidida. Mas estou certa de que minha pele continuará indefinidamente sussurrando aos seus ouvidos e seu cheiro me chamará a todo instante. São essas as nossas vozes, meu amor.


(Texto publicado no Jornal Cultural "Conhece-te a ti mesmo", edição nº 89 - julho/2008)

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