segunda-feira, 21 de julho de 2008

Rendição

Pode perguntar a qualquer um que a conheceu na juventude: era a moça mais bela da cidade. Hoje, poucos a reconhecem.

Os cabelos embranquecidos estão por toda a casa, fios prontos para tecer histórias das quais ela não deve querer de lembrar. Há tempos o manto prateado cobriu-lhe as faces, renunciando a toda cor que um dia habitara seu semblante.

Os ombros um pouco curvados parecem ainda carregar um peso que não é mais seu; o passado pesa-lhe feito uma casa em escombros que um dia chamou de lar. A cada dia curva-se um pouco mais – parece reverenciar o sofrimento que cultiva cuidadosamente.

Ela se entrega às dores físicas que jura sentir. Diz que reza pedindo alívio. Sua religiosidade se satisfaz com a missa televisionada e as imagens de santos mantidas no quarto desarrumado.
Não usa mais nenhuma maquiagem. O último frasco de xampu foi jogado fora porque venceu sem sequer ter sido aberto. Um creme para os pés jaz no armário do banheiro. A escova de dentes eventualmente tem utilidade.

Ela é bela, mas parece ter se esquecido disto. Bela e amorosa. Guerreira que venceu tantas batalhas e parece ter se esquecido disto. Vencedora. Por que se render agora? A guerra já acabou; não há mais miséria ou tortura. Por que se render justo agora?

Ela desliza pela casa, sussurrando. Suas preocupações se resumem ao preço do feijão e do gás que ela não compra, dos remédios que não quer tomar. O filho mais velho encarrega-se de prover a casa de tudo o que é justo e necessário. O médico vai mensalmente visitá-la em vão – está trancada em seu quarto-mausoléu e não está para ninguém.

A filha tenta em vão resgatar a feminilidade do lar. Comprou-lhe os mais variados utensílios, na esperança de que todo aquele arsenal culinário lhe trouxesse outra vez a vontade de ser a verdadeira dona da casa.

Tudo é em vão. A vida vai deixando a casa, sorrateira. Aos poucos, as plantas morrem. O diálogo morre. Os sorrisos morrem. A paciência morre. O amor resiste. A vontade resiste. A vida não espera. Mas ela devia querer saber disto.

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