Quarenta pessoas. Talvez um pouco mais, por causa do horário. Um amontoado de gente se espremendo dentro do coletivo.
Cabelos naturalmente pretos, castanhos, loiros e ruivos juntam-se a outros cujas cores é impossível definir desde a invenção das tinturas. Cabelos secos, molhados, oleosos. Quilos de caspa. É possível que haja piolhos.
Cada cabeleira emoldura um rosto estranho. Faces igualmente compostas por um par de olhos, nariz e boca, mas com feições únicas, indecifráveis. Alguns rostos não foram lavados esta manhã. Outros são demasiadamente maquiados todas as manhãs. Sardas, manchas, espinhas, cicatrizes. Pêlos brotando de ouvidos e narizes. Dentes limpos, dentes sujos, dentes cariados. Bocas sem dentes. Cheiro de bala de menta. Mau hálito.
Os corpos se tocam intencionalmente ou não, dependendo da índole dos passageiros e do movimento do veículo. Corpos jovens e velhos, femininos e masculinos. Aglomerados de células carregando um número incontável de vírus, bactérias e fungos, que promovem entre si um intercâmbio voraz. Cheiro de perfumes, loções, desodorantes, suor, urina, flatos. Cheiro de gente.
Dezenas de mãos disputam um lugar nas barras. Mãos calejadas, sujas e limpas, pequenas, grandes. Umas, cheias de anéis. Outras mostram marcas de alianças tiradas momentaneamente ou para sempre. Centenas de unhas. Micoses, esmaltes, sujeira, cera de ouvido, pele de amantes.
Uns dormitam com as cabeças apoiadas nos vidros sujos das janelas. Um homem deixa a passageira próxima perceber sua ereção. Uma mulher sentada oferece seu decote inoportuno. Um casalzinho se beija no banco de trás. Alguns seguem calados. Uma criança chora. Velhos rezam e resmungam. Alguém fala ao celular. Um grupo de jovens conversa alto sobre qualquer coisa sem importância. E a Babel segue, sacolejando avenida afora.
Aguardo sua chegada junto a mais uma dúzia de indivíduos. À medida em que o ônibus se aproxima, formamos uma fila por ordem de chegada ao ponto – pode ser que não haja lugar para todos. O motorista pára um pouco adiante, desorganizando nossa pequena sociedade. Alguns descem indiferentes. Outros parecem aliviados. Subo com dificuldade e tenho que me contentar com um espaço ínfimo nos degraus do coletivo. Compreendo a indignação de uma pessoa que ouvi dizer que jamais adentrará novamente aquela jaula sobre rodas. Mas, afinal, sou só mais um exemplar desta espécie de bicho.
segunda-feira, 21 de julho de 2008
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