segunda-feira, 21 de julho de 2008

Crise

Por que não simplificamos as coisas? Já sabemos como isso vai terminar... Corrija-me se eu estiver errada.

Você não dormirá. Ficará se virando de um lado para outro na cama, remoendo tudo o que não foi dito ou feito antes de nos deitarmos. No meio da madrugada, você se levantará. Abrirá o guarda-roupa. Pegará algumas peças furiosamente, e certamente a escolha não será ao acaso. Eu acordarei com o ruído da sacola. Ainda sonolenta, me sentarei na cama e perguntarei o que está acontecendo. Claro que eu já sei. Mas não me acorrerá nada melhor para começar a conversa. Passaremos alguns minutos, talvez até mesmo horas, discutindo nossa aparente falta de tempo, a falta de dinheiro, a falta de problemas. Você sairá dramaticamente de casa. Eu chorarei até que amanheça.

Você voltará para a casa da sua mãe e eu voltarei para o colo da minha. Durante dias, seu cheiro almiscarado, impregnado no quarto, me enlouquecerá. Seus olhos de absinto me seguirão pelas ruas em rostos desconhecidos. Sua boca não beberá o café forte que farei em excesso todas as manhãs. Minhas amigas terão que suportar minhas crises de choro no meio de um dia cheio de trabalho.

Você ouvirá todos os seus discos. Relerá toda a sua coleção de revistas de futebol e sacanagem. Discutirá com sua mãe porque ela não faz o café ao seu gosto. Estranhará a cama de solteiro. Sentirá falta do meu perfume no travesseiro. Mas ainda assim fingirá uma pontinha de prazer ao contar para os amigos que abandonou a megera com quem se casou.

Eu telefonarei para você. Você não me atenderá. Eu tentarei ligar para algum homem interessante, cujo telefone me será dado por alguma amiga solteira. Desligarei antes que ele atenda. Você telefonará para meia dúzia de mulheres, mas talvez nem as encontre – bastará saber que estão todas lá, à sua disposição. Afinal de contas, não sou a única mulher no mundo.

Depois de uma semana, mais ou menos, cansados de fingir que podemos viver sem o outro, marcaremos um encontro em um restaurante. Eu irei com um vestido recatado e a maquiagem impecável. Você irá muito bem barbeado, vestindo aquela camisa que eu adoro. Conversaremos com uma formalidade ensaiada. O almoço terminará na nossa cama. Você voltará para casa e viveremos felizes para sempre. Ou até a próxima crise.

Percebe quanto tempo perdermos? Quanto desgaste! Ao invés de cumprir todo este roteiro, sugiro que passemos logo ao final. Vamos deixar essa bobagem de lado. Venha para a cama, ande logo. Aposto que temos coisa melhor a fazer do que discutir o que quer que seja.

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