Hordas de alienados. Lá vão eles pelas ruas rumo à enseada. A maioria veste branco sem saber o porquê. Talvez as mulheres acreditem que, porque viram as vitrines pálidas, então deveriam se vestir assim. É a moda, é a maldita moda. A mesma moda que fez milhares de meninas morrerem de inanição. Malditos sejam todos os estilistas do mundo. Malditas sejam as passarelas e os que nela pisam. Mas de que adianta amaldiçoar agora? Tudo caminha para o Fim e esses imbecis sequer se deram conta disso. Não é apenas o fim de mais um ano, será que não percebem?
Eu tentei avisar a todos, mas não me ouviram. Acham que estou louca, acham que estou louca! Riram de mim, riram às minhas custas, pelas minhas costas ou descaradamente. Imbecis! Eu agora os vejo pela janela, bando de mortos-vivos. Uns grupos seguem em procissão, carregando oferendas inúteis a divindades inoperantes. Outros, arruaceiros, espalham seu hálito de álcool e bestialidade por onde passam. Famílias inteiras. Famílias despedaçadas. Familiares deserdados. Desertores de todo gênero. Todos andando na mesma direção. Parecem em transe. Só querem saber de ver os fogos na praia, mas são incapazes de perceber o fogo que consome o mundo e a cada um deles.
O telefone não pára de tocar. Que se dane o telefone e o idiota do outro lado do fio. Deve ser aquele otário a quem me conduziram mês passado; disseram que ele era um ótimo médico e poderia me ajudar. Já ligou dezenas de vezes esta semana, o coitadinho. Coitadinho! Pensa que vou engolir sua bondade e suas pílulas. É mesmo um coitado que se veste de branco o ano todo e agora deve estar com outros de sua laia na sacada de um hotel de luxo. Exibicionistas de merda! Seu dinheiro não vai impedir seu fim.
Se eu ficar aqui, bem quietinha, junto com minhas coisinhas, será melhor. Mas não verei aqueles (des)crentes com cara de bunda quando o Fim chegar. Acho que vou descer e acompanhá-los em seu cortejo fúnebre inconsciente. Não vou me vestir de branco como eles. Nem de preto, como seria próprio para a ocasião. Vou exatamente como estou agora: nua. Não precisarei exibir vestimenta alguma para o Fim. Ele já me tem assim, de corpo e alma nus. E ele me ama e me escolheu como seu arauto. Os outros não sabem disso, mas sou sua favorita. Não serei poupada, porque quero me imolar. O Fim me merece tanto quanto eu o mereço. Logo seremos um só.
A multidão me absorve feito um grão de poeira. Uns velhos se escandalizam com minha nudez. Rio alto. Agora é minha vez de rir de vocês, que não me ouviram. Desgraçados! Eu sei o que vai acontecer, eu sei o que vai acontecer! Loucos são vocês, desgraçados! Sigo protestando em silêncio contra tudo deste mundo falido.
Sei que não haverá nenhuma explosão, maremoto ou coisa parecida. Será como o apagar de uma luz. Como se o planeta fechasse os olhos e não mais os abrisse. Rápido, surdo, indolor. Feito o despertar de um sonho. Isso mesmo, estamos todos mortos e sonhamos com a vida. Despertaremos em poucos minutos. Voltaremos à nossa condição de nada. Nada. É isso que somos.
Contagem regressiva. Um rebanho inteiro desgarrado é o que vejo. Pensam que haverá uma nova chance, um ano novinho em folha para limparem suas fichas. E depois a louca sou eu! Cinco... Quatro.. Três... Vou fechar os olhos. Até nunca mais.
segunda-feira, 21 de julho de 2008
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