Dia de mudança. Enquanto a mulher empacotava as coisas, a menina corria pela casa. As caixas iam se amontoando pelos cômodos, atrapalhando a passagem da mulher aflita pelo término da arrumação; a menina saltava pacotes e ria alto da bagunça.
A mulher lançou um olhar estupefato ao seu redor. Nunca houvera se dado conta das coisas que acumulara desde a última mudança, há tantos anos trás. Talvez fosse uma boa idéia se desfazer de alguns objetos, mas ser-lhe-ia impossível eleger os imprescindíveis.
A menina não parava. Abria e fechava caixas e sacolas. Puxava a barra da saia da mulher. Tudo era novo, divertido; tudo era seu. Vez ou outra a mulher lhe dirigia olhares repreensivos, mas ela não se importava. Continuava rodopiando seu vestidinho rendado pela casa.
Um baú esquecido no porão chamou a menina. Ela o abriu cuidadosamente, mesmo sabendo que isso desagradaria a mulher. Os olhinhos se iluminaram com a descoberta. A boneca de louça jazia entre trapos e papéis velhos. Resgatou-a com cuidado maternal. Fez que a amamentava. Acariciou-lhe o cabelo preto. Beijou-lhe as faces rosadas. Correu extasiada para mostrá-la à mulher.
Às voltas com os utensílios da cozinha, a mulher se irritou com a interrupção. A menina fez cara de choro. Mostrou a boneca. A mulher se abaixa. A menina hesita. Permaneceram assim por um instante, se olhando, assustadas, confidentes. A menina se aproxima e oferece a boneca. A mulher se esquiva. A boneca é deixada entre elas. A mulher fitava a menina, que fez um aceno sutil com a cabeça. Recolheu, finalmente, a boneca.
Quando o caminhão finalmente chegou, a mulher ainda estava agachada na cozinha, embalando a boneca. Levantou-se e rodopiou mais uma vez seu vestido rendado pela casa, antes de escolher as caixas que seriam levadas para o novo lar.
segunda-feira, 15 de setembro de 2008
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