Eu era ainda criança quando ela me tocou pela primeira vez: a Falta. A Falta me acompanhava à escola, sentava-se à mesa comigo e ria dos meus trejeitos de menina (in)dependente. Foi logo mostrando a que veio, e eu fui tratando de tentar expulsá-la a todo custo. Vãos esforços! Ela chegara para ficar.
Durante tantos anos eu a odiei com tanta força que carreguei um corpo e uma alma doentes. Tornei-me um espectro dela. Mas chegou o dia em que percebi que não me restava alternativa senão admitir que toda aquela luta era inútil - ela não me deixaria jamais. Era parte de mim, feito sangue, ossos e cabelos.
Decidi amá-la. Sim, amo a Falta. Amo-a e desejo-a com todo o seu cortejo.
Amo o dia que nasce e traz consigo essa dor de saber que não me basto. Amo os frutos rubros e suculentos dessa dor que me alimentam e empurram meus pés rumo ao que nem sei se existe.
Amo os que andam pela rua e não me (re)conhecem, que me ignoram, que me deixam a sós com a Falta nessa caminhada errante por um mundo que não sei de quem é.
Amo cada lágrima que derramei em seu nome, Falta. Amo a inutilidade de cada pranto. Amo a percepção da minha impotência diante da sua exuberância.
Desejo ardentemente a noite e seu vazio infinito que se deita comigo e em mim, e me apunhala sem piedade o peito cheio da Falta. Venero essa ferida que se renova.
Amo as lembranças que não tenho, os momentos que não vivi, os amigos que são dos outros, os amores que não são meus. Gosto de imaginar o que nunca acontecerá.
Um dia me disseram que meu olhar é triste. Chamam tristeza ao que eu chamo devoção. Devoção à Falta. Pobres! Não sabem o quanto desejo que ela me consuma. E eis o que declaro e prometo, solenemente: hei de amar essa minha Falta e cultivá-la a cada minuto, até que pereçam meu corpo e minha alma. Ou até que ela se enfastie de tanto amor e me descarte, grão apodrecido de sua seara infinita.
sábado, 10 de janeiro de 2009
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