domingo, 21 de dezembro de 2008

Pedido

Não me pergunte o que sobrou. Não me peça para dizer o que fomos. Não me vasculhe em busca do que pode ter se perdido. Não me peça para lembrar o que esquecemos.

Às vezes a gente se agarra ao passado com tanta sofreguidão que acaba ficando amarelecido também. O cheiro das gavetas fica impregnado na pele e no olhar. Olhar para trás é envelhecer com o que não existe mais.

Peça-me para falar do que é perene, do que vem com o sereno de cada manhã e não se vai ao pôr-do-sol. Peça-me peças novas para uma história que nunca se completará - porque essa é a nossa natureza - e eu as lhe darei.

Deixe-me lhe oferecer um poema novo, um poente novo, um sentimento renovado. Deixe-me lhe oferecer a outra face ao toque. Mostre-me um novo jeito de caminhar sob a chuva.

E enquanto descobrimos os outros que somos, eu sei que todos os que fomos dançarão no riso que é só nosso.

sábado, 15 de novembro de 2008

Caça

Os cabelos lisos caídos sobre os óculos meio tortos e uma expressão de jogador inveterado. A camiseta por baixo da camisa aberta não deixava vestígio da tensão que untava seu corpo magro. Outra noite. Outro bar.

Pediu a habitual dose de whisky. Sentou-se num canto, à espreita. Ela viria, com toda certeza. Todas elas sempre apareciam.

A espera era parte do ritual. Sempre chegava cedo para sentir a expectativa corroendo suas entranhas. A incerteza do encontro era um estimulante poderoso. Mas elas sempre vinham. Que mulher resistiria a um perfil tão bem construído?

Finalmente ouviu o som dos saltos altos cortando a fumaça dos cigarros. Alta, loira, corpo esculpido sob um vestido vermelho bem cortado. Ainda mais bonita do que havia prometido. Sentou-se junto ao balcão. Pediu uma bebida qualquer enquanto os olhos vívidos vasculhavam o lugar à procura dele.

Outra dose de whisky. Era quase insuportável imaginar aquele corpo em suas mãos. Tocou de leve a ereção dolorida. Ela olhava para o relógio a todo instante. Conferia o telefone celular freneticamente. Ele poderia simplesmente ir até lá e tomá-la feito um bicho, feito um troféu de caça. Mas o anonimato era absurdamente entorpecente. Não era nem de longe parecido com o rapaz a quem ela esperava se entregar.

À beira de um colapso, tomou mais uma dose de uma só vez. Pagou a conta. Passou pela moça, esbarrando em seu braço.

Trancou-se no quarto. Ligou o computador. Suspirou, aliviado. Lá estavam elas, todas elas, loucas por ele. Acessíveis e incansáveis. Prontas para mais uma rodada de sexo virtual e encontros que jamais acontecerão.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Elogio

Domingo de manhã. Acordei cedo demais, com aquela sensação de que deveria dormir um pouco mais. Mas quando vi você adormecido ao meu lado, percebi que havia despertado na hora perfeita. Sua respiração calma, morna, ao encontro da minha pele; a desordem dos seus cabelos negros sobre a calma dos travesseiros; seu corpo forte e indefeso sob a minha fascinação – poderia eu desejar estar dormindo ante tão perfeita cena? Foi então que me dei conta do que é amar.

Quando a gente gosta de alguém, é fácil passear de mãos dadas por aí, ir a restaurantes badalados com os amigos, jantar com outros casais, esbanjar sorrisos e roubar um beijo antes de fechar o portão. É tão fácil amar socialmente! Difícil é se abrir por inteiro e adentrar o outro.

Amar não é simplesmente dividir seu corpo com alguém. O amor é a intimidade além da nudez. Amar é perder o medo de dividir a cama, o sono, os sonhos, o ressonar. É não ter que ir embora depois do gozo. É não ter a obrigação do gozo. É não ter que sair sorrateiramente pela manhã.

Acordar ao seu lado me trouxe a certeza de que não somos apenas dois corpos repartidos. Foi assim, silenciosamente, que você me fez o melhor de todos os elogios.

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Mudança

Dia de mudança. Enquanto a mulher empacotava as coisas, a menina corria pela casa. As caixas iam se amontoando pelos cômodos, atrapalhando a passagem da mulher aflita pelo término da arrumação; a menina saltava pacotes e ria alto da bagunça.

A mulher lançou um olhar estupefato ao seu redor. Nunca houvera se dado conta das coisas que acumulara desde a última mudança, há tantos anos trás. Talvez fosse uma boa idéia se desfazer de alguns objetos, mas ser-lhe-ia impossível eleger os imprescindíveis.

A menina não parava. Abria e fechava caixas e sacolas. Puxava a barra da saia da mulher. Tudo era novo, divertido; tudo era seu. Vez ou outra a mulher lhe dirigia olhares repreensivos, mas ela não se importava. Continuava rodopiando seu vestidinho rendado pela casa.

Um baú esquecido no porão chamou a menina. Ela o abriu cuidadosamente, mesmo sabendo que isso desagradaria a mulher. Os olhinhos se iluminaram com a descoberta. A boneca de louça jazia entre trapos e papéis velhos. Resgatou-a com cuidado maternal. Fez que a amamentava. Acariciou-lhe o cabelo preto. Beijou-lhe as faces rosadas. Correu extasiada para mostrá-la à mulher.

Às voltas com os utensílios da cozinha, a mulher se irritou com a interrupção. A menina fez cara de choro. Mostrou a boneca. A mulher se abaixa. A menina hesita. Permaneceram assim por um instante, se olhando, assustadas, confidentes. A menina se aproxima e oferece a boneca. A mulher se esquiva. A boneca é deixada entre elas. A mulher fitava a menina, que fez um aceno sutil com a cabeça. Recolheu, finalmente, a boneca.

Quando o caminhão finalmente chegou, a mulher ainda estava agachada na cozinha, embalando a boneca. Levantou-se e rodopiou mais uma vez seu vestido rendado pela casa, antes de escolher as caixas que seriam levadas para o novo lar.

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Cansaço

Não venha me falar sobre o seu dia ou sobre sua noite mal dormida. Não me interessam seus sonhos; não pertenço aos seus pesadelos. Não me conte seus planos. Não há nada que eu possa fazer para sabotá-los, tampouco quero trabalhar a seu favor.
Já estou aqui há tempo demais; não pertenço a este ou a qualquer outro lugar que você conheça. Estou de saída e dispenso sua despedida.
Não quero saber o que sua mão direita omitiu à esquerda. Poupe-me da sua caridade de fim de semana. Não me honre com sua castidade ou sua entrega. Não quero saber quantos se servem de você. Se você faz tanta questão de me oferecer alguma coisa, que seja o seu silêncio, a sua morte a cada segundo, seu desprezo.
Você diz que me conhece melhor que eu mesma. Você quer viver através de mim. Você quer que eu seja você e me arrependa dos seus erros. Você quer que eu conserte seu passado despedaçado. Você me cobra um futuro que é seu. Acontece que a minha dor é só minha. O meu gozo é só meu. Minha vida deveria ser só minha. Não suporto mais ver você nos meus espelhos. Devolva-me o meu reflexo, o meu inferno, o meu paraíso. Deixe meus sonhos em paz. Deixe meus pesadelos debaixo do meu travesseiro. Nada aqui pertence a você.
Não faça essa cara de vítima. Não vou assumir o papel do carrasco mais uma vez. Não ofereça seu rosto ressentido à agressividade da minha mão. Não tente me comover com essas lágrimas fáceis. Não vou prostituir meu interesse à sua mágoa. Nunca quis você acima ou abaixo de mim. Se não pode estar exatamente ao meu lado, faça-nos o favor de sumir.
Já é tarde, eu sei. Não é hora para se falar dessas ou de outras coisas; talvez nunca seja a hora para se falar de certos assuntos. Vai ver é só um delírio meu, como sempre. Vai ver você tem razão. Como sempre.

domingo, 3 de agosto de 2008

Segredo

Nunca gostei de caminhar sob o sol. Mas, às vezes, grandes prazeres nos custam pequenos sacrifícios, e é por isso que me disponho a percorrer ruas e avenidas sem fim antes que a noite venha acertar contas antigas comigo.

Sei que, a essa hora, ela já deve ter lavado as louças do almoço. O marido deve estar assistindo ao último bloco do noticiário esportivo na televisão enquanto ela apressa as crianças. Pede a ele que as deixe na escola, não está disposta a sair de casa por causa do calor. O marido concorda com qualquer coisa que ela diga enquanto ouve o resultado da última partida de seu time de coração. Ela sorri, mas ninguém vê.

Sigo pelas ruas do centro da cidade, coalhadas de gente, mas ninguém me percebe. Melhor assim. Não me interessa que os passantes notem minha presença. Logo alcanço o bairro residencial e aquela onda de pessoas se transforma numa ilha de paz.

Debruçada na janela, ela traga um cigarro barato comprado de manhã, junto com o pão. Os dedos longos, com unhas bem pintadas de um tom de rosa incomum, conduzem mecanicamente o filtro amarelo aos lábios.

Ela me espera, e ninguém mais sabe disso. Dentro de alguns segundos, ela acenará discretamente para mim, indicando a porta previamente destrancada. Eu entrarei e, sem que nenhuma palavra seja dita por mim ou por ela, seremos tomados pela luxúria vespertina e habitual. Eu sequer perceberei o cheiro do cigarro em seus cabelos; talvez ela sinta meu hálito de wisky. É provável que alguém nos observe pela janela entreaberta, mas não nos importaremos. Não há tempo para essas preocupações pudicas. Não há tempo para mais nada senão para o nosso gozo secreto, sagrado. Eu me vestirei sem pressa ou remorso. Ela me observará sem revolta ou paixão. Ganharei novamente a rua e ela terá ganhado seu dia.

Ela agora está a poucos metros de mim, já posso ver seu busto firme sobre o parapeito. Consigo distinguir suas feições com cada vez mais clareza, e isso me perturba um pouco. Num movimento brusco, ela joga o toco de cigarro na rua e olha em minha direção. Tento desviar o olhar, mas é tarde demais. Ela fixa o olhar em meu rosto por um momento ínfimo, criando uma intimidade que jamais tivemos. Passo por sua janela enquanto ela fecha as cortinas.

Mais adiante, em uma outra janela, uma moça loira tamborila dissimuladamente os dedos sobre o parapeito. É um sinal secreto para mim. Mas isso ninguém nunca vai saber.

Pilar

Tenho medo dos santos que me vigiam nas igrejas. Tenho medos das mãos inertes de um gesso tingido de sangue e fé dos que deixam esmolas e velas e rezas. Tenho medo do olhar coercitivo do alto do altar.

No confessionário, os ouvidos de um homem igualmente pecador se alimentam dos relatos dos que buscam algum tipo de redenção instantânea. Não entendo por que Deus precisa de intermediários. Não entendo esse perdão dado em troca da simples auto-delação.

Ainda recém-nascida, mergulharam-me na pia batismal para me livrar do pecado original. Alguns anos depois, catequizaram-me como fizeram aos índios, e esfolaram minha crença natural. Deus entrou no meu corpo pela hóstia que me mandaram engolir sem mastigar. A Igreja é santa; o Papa decreta o pecado; tem que rezar o terço; não pode comer carne na Sexta-Feira da Paixão. Engoli sem mastigar.

Os santos me vigiam de cara feia. Tenho medo. Uma velha repete uma infinidade de ave-marias sem pensar. Não sei se devo sair daqui agora. Será que ela rezaria por mim? Não consigo rezar como me ensinaram. Converso com Deus a meu modo, não sou boa para decorar rezas. As ladainhas me enlouquecem. Tenho medo.

Debaixo das tábuas estão enterrados os ricos. Os pobres que se juntem à terra. Na hora da missa, os pobres pisam o túmulo dos abastados numa revanche inconsciente. Jesus foi pobre. Não entendo por que a Igreja gosta tanto dos ricos.

No teto, há um cordeirinho sobre a cruz. Se eu me mexer, ele vai para debaixo dela. Não quero perturbar o cordeirinho. Ele me observa em paz, não tenho medo dele. Fico quietinha. A velha foi embora. Ninguém reza por mim. Mas o cordeirinho me observa em paz.

Quero chorar, mas minhas lágrimas não são bonitas como as contas de cristal que pendem do teto. Tenho vergonha do meu choro fosco. A igreja é cheia de ouro, não quero manchá-la com meus pecados tolos.

Daqui a pouco é hora da missa. Muita gente vem rezar, e eu acho isso tão bonito. Quando eu era criança, minha avó sempre me levava à missa. A igreja ficava cheia e eu passava mal. Agora a igreja ainda está vazia e não me sinto bem. Os santos me censuram. Quero ficar perto da minha avó. Quando ela reza, fecho os olhos e me sinto tão bem. Minha avó fala direto com Deus. Mas ainda gosta do que o padre diz.

Meu Deus, me deixa ser índia outra vez.

Partida

Não sei dizer se tranquei a porta, ou se sequer a fechei. Minha partida era urgente. Tardia, é verdade, mas urgente como nunca coisa alguma foi em minha vida. Eu só queria deixar para trás tudo aquilo que não existia mais em mim.

A noite ardia em meu rosto. A vontade de arder em seu corpo me consumia a cada passo. Não avisei que iria, mas sei que ela me receberá. Ela tem que me receber. Há oito anos ela esperava por este momento. Há oito anos ela tentava me despertar. Que bom que ela não desistiu. Não suportaria não tê-la agora.

A mala pesa tal qual meu remorso por não ter partido antes. Queria ter tido força para abraçá-la quando seu corpo me chamava em silêncio. Queria ter tido a hombridade de assumir minha fraqueza em face deste amor tão devotado. Mas sua força e paciência me trouxeram até aqui. Ela sempre foi minha. Finalmente posso me doar com a mesma ternura e abdicação.

As esquinas me atormentam. Tentam me confundir. Mas nada me desviará do nosso destino. Um táxi quase me atropela quando atravesso a rua no quarteirão da sua casa. Maldito! Mas nada será capaz de atravessar nosso caminho agora.

Toco a campainha. Por que não me atende? Insisto. Sem resposta, lanço contra a porta toda a minha agonia. Grito seu nome. O que fazer para que me ouça? Ela sempre adivinhou meus pensamentos, será possível que não percebe minha presença? Um vizinho, irritado com o meu desespero, acaba de me informar que ela partiu há pouco. Não sabe para onde ela foi. Não sabe se voltará. Por que não me esperou? Por quê?

Recordo cada palavra que ela me disse, cada gesto que me dirigiu, cada beijo que abençoou meus lábios. Um dia, ela me disse que vivemos em uma outra dimensão. Que há um lugar só nosso, imaculado. Ela disse que nosso amor não é deste mundo. Mas eis que estou aqui, neste mundo, e preciso estar com ela. Só me resta esperar que ela desista de partir. Estarei aqui, à sua porta, esperando que um carro desses que cortam a madrugada a devolva para a vida que deveria começar agora.

Escolha


Reviu pela última vez as fotos. Deixou-as de lado. Quis telefonar para ela, pedir um conselho, perguntar pela tarde que caía, ouvir sua voz de anjo, dizer que estava a caminho, ficar em silêncio. Vasculhou o quarto para se certificar de que nada ficava para trás. Pensou em pegar uma foto, aquela em que sorria ao lado do menino.

Quis se desfazer das cartas. Abriu um por um os envelopes. Releu cada palavra. Quis telefonar para ele, dizer que ainda estava lá, perguntar como foi o dia, ouvir sua risada fácil, falar coisas sem compromisso com a razão. Recolheu as cartas. Guardou-as novamente. Desejou ter ao menos uma fotografia.

O menino dormia, melhor assim. Desejou que tudo não passasse de um sonho ruim. Quis a serenidade da criança adormecida. Quis adormecer e não mais despertar.

Não conseguia odiá-lo. Desejou que o amor adormecesse. Queria adormecer e despertar ao lado dele. Queria apenas adormecer ao seu lado.

Sentia-se esgotado. Precisava das mãos dela, da calma que só ela desenhava com os dedos em seu rosto, do gosto de beijo roubado que ela pintava nos lábios. Precisava dela. Pertencia a ela. Sentiu-se estúpido por tê-la deixado partir aquela noite. Devia ter dito a verdade. Devia ter confessado sua fraqueza. Ela merecia mais que um beijo.

Lembrou-se do último encontro. Quis saber a verdade, mas não havia nenhuma verdade a ser dita. Não conseguia compreender aquele amor que ele declarava mas não vivia. Tentou fugir antes que se ferisse ainda mais. Não pôde fugir do beijo terno que ele derramou sobre seus lábios ante a lágrima que não pôde conter. Quis partir sem olhar para trás. Quis partir noite adentro sem ter que amanhecer.

Sentiu-se estranhamente liberto ao abrir a porta. Aos poucos, os passos vacilantes ganharam ritmo e traçaram o caminho já conhecido. Percorreu os quarteirões com sofreguidão, a despeito do peso das malas e das mágoas que trazia consigo. Certamente ela estaria em casa. Ela tinha que estar em casa, a casa à qual ele sempre pertencera.

Chamou um táxi. Vasculhou o quarto para se certificar de que nada ficava para trás. Pensou em levar as cartas. Sentiu-se sobremaneira vazia ao deixar a casa tão cheia de recordações. Deixou que o motorista acomodasse as malas no veículo. Partiu sem se despedir da casa que ele nunca habitou.


Era tarde quando um táxi dobrou a
esquina e quase atropelou um homem
que corria, cheio de bagagem.
A passageira não percebeu
a iminência do acidente,
porque estava totalmente
absorta na conferência de sua passagem.

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Elizabeth

Não deve ser tão difícil. Difícil foi decidir. Mas agora que já sei o que quero, a parte mais fácil será fazer. Mas há de ser em grande estilo. Passar despercebida nessa hora? Deus me livre! Também tenho direito aos meus quinze minutos de fama. Serão meus últimos minutos, mas ao menos serão lembrados por gerações.

Coisa piegas é escrever a tal carta. Quando encontram o corpo de um suicida, já passam batido por ele em busca da carta. A carta acaba tendo mais destaque que o defunto. Querem saber logo de quem foi a culpa. Enquanto mosquitos vasculham a pele ainda morna do corpo jacente, um bando de curiosos revira o cenário desesperadamente, atrás da portadora oficial da derradeira revelação. Não quero que isso me aconteça. Mas é preciso que todos saibam de quem é a culpa. Tenho que encontrar uma forma de fazer isso.

Também quero que tenha uma música de fundo. A música que será lembrada por todos como a trilha sonora da minha partida. As grandes cenas dramáticas do cinema sempre vêm acompanhadas de uma música. Tudo bem, minha vida não é nenhum filme, mas quero que as pessoas se lembrem do meu drama toda vez que ouvirem a música. Talvez uma música instrumental. Moonlight Sonata, de Beethoven, cairia bem. Mas o povo é desprovido desta cultura, pouquíssima gente ouve Beethoven – nunca serei lembrada. Talvez eu devesse escolher algo, digamos, mais popular. Mas quem consegue imaginar um suicídio sendo cometido ao som de um funk? Ou, pior, um suicida dançando seus últimos passos de axé antes de se jogar do alto do prédio? Prefiro partir em silêncio a me submeter a esse tipo de cena, coisa grotesca.

Música, cenário, carta... Esses são detalhes que posso resolver depois. A prioridade agora é definir como. Overdose de algum antidepressivo? “Já estava neurótica, olha as caixas de remédio. Tudo tarja preta, coisa pra doido”. Melhor não. Dar um tiro na cabeça. Assim não tem erro, morte rápida, sem tempo pra sofrer. Mas meus cabelos tão bem cuidados, minha pele de pêssego... “Olha o tamanho do buraco que a bala fez! Tem pedaço de cabeça pra todo lado”. Estragar tudo isso e ser velada em caixão fechado? Há de haver outro jeito. E se eu tomasse uma boa dose de veneno pra ratos? “Cruzes, veja quanta espuma saía de sua boca! Parece uma cadela raivosa”. Nem pensar, ser comparada a uma cadela. Raivosa sim, mas cadela nunca. E se eu me enforcasse? Acho que o lustre da sala de jantar está bem firme, pode suportar meu peso. Aliás, ser magra tem suas vantagens nessas horas. Pensando bem, acabo de me lembrar das aulas de Medicina Legal. Olhos estatelados, língua roxa... Preciso de um outro plano. Quem sabe então... Saltar do prédio mais alto da cidade! Trinta e poucos andares, acho que é o suficiente. Bem na hora do rush. Público estimado de duas mil pessoas. Perfeito. Salto de braços abertos e caio na calçada. Olhos esbugalhados, cabeça estourada, braços e pernas num trágico desarranjo. E os outros se desviando de mim, enquanto alguns moleques pisam meu sangue para arrancar minhas jóias. Não, não quero ser lembrada assim. Credo.

Quer saber de uma coisa? Desisto. Nunca imaginei que morrer desse tanto trabalho...

Rendição

Pode perguntar a qualquer um que a conheceu na juventude: era a moça mais bela da cidade. Hoje, poucos a reconhecem.

Os cabelos embranquecidos estão por toda a casa, fios prontos para tecer histórias das quais ela não deve querer de lembrar. Há tempos o manto prateado cobriu-lhe as faces, renunciando a toda cor que um dia habitara seu semblante.

Os ombros um pouco curvados parecem ainda carregar um peso que não é mais seu; o passado pesa-lhe feito uma casa em escombros que um dia chamou de lar. A cada dia curva-se um pouco mais – parece reverenciar o sofrimento que cultiva cuidadosamente.

Ela se entrega às dores físicas que jura sentir. Diz que reza pedindo alívio. Sua religiosidade se satisfaz com a missa televisionada e as imagens de santos mantidas no quarto desarrumado.
Não usa mais nenhuma maquiagem. O último frasco de xampu foi jogado fora porque venceu sem sequer ter sido aberto. Um creme para os pés jaz no armário do banheiro. A escova de dentes eventualmente tem utilidade.

Ela é bela, mas parece ter se esquecido disto. Bela e amorosa. Guerreira que venceu tantas batalhas e parece ter se esquecido disto. Vencedora. Por que se render agora? A guerra já acabou; não há mais miséria ou tortura. Por que se render justo agora?

Ela desliza pela casa, sussurrando. Suas preocupações se resumem ao preço do feijão e do gás que ela não compra, dos remédios que não quer tomar. O filho mais velho encarrega-se de prover a casa de tudo o que é justo e necessário. O médico vai mensalmente visitá-la em vão – está trancada em seu quarto-mausoléu e não está para ninguém.

A filha tenta em vão resgatar a feminilidade do lar. Comprou-lhe os mais variados utensílios, na esperança de que todo aquele arsenal culinário lhe trouxesse outra vez a vontade de ser a verdadeira dona da casa.

Tudo é em vão. A vida vai deixando a casa, sorrateira. Aos poucos, as plantas morrem. O diálogo morre. Os sorrisos morrem. A paciência morre. O amor resiste. A vontade resiste. A vida não espera. Mas ela devia querer saber disto.

Fim

Hordas de alienados. Lá vão eles pelas ruas rumo à enseada. A maioria veste branco sem saber o porquê. Talvez as mulheres acreditem que, porque viram as vitrines pálidas, então deveriam se vestir assim. É a moda, é a maldita moda. A mesma moda que fez milhares de meninas morrerem de inanição. Malditos sejam todos os estilistas do mundo. Malditas sejam as passarelas e os que nela pisam. Mas de que adianta amaldiçoar agora? Tudo caminha para o Fim e esses imbecis sequer se deram conta disso. Não é apenas o fim de mais um ano, será que não percebem?

Eu tentei avisar a todos, mas não me ouviram. Acham que estou louca, acham que estou louca! Riram de mim, riram às minhas custas, pelas minhas costas ou descaradamente. Imbecis! Eu agora os vejo pela janela, bando de mortos-vivos. Uns grupos seguem em procissão, carregando oferendas inúteis a divindades inoperantes. Outros, arruaceiros, espalham seu hálito de álcool e bestialidade por onde passam. Famílias inteiras. Famílias despedaçadas. Familiares deserdados. Desertores de todo gênero. Todos andando na mesma direção. Parecem em transe. Só querem saber de ver os fogos na praia, mas são incapazes de perceber o fogo que consome o mundo e a cada um deles.

O telefone não pára de tocar. Que se dane o telefone e o idiota do outro lado do fio. Deve ser aquele otário a quem me conduziram mês passado; disseram que ele era um ótimo médico e poderia me ajudar. Já ligou dezenas de vezes esta semana, o coitadinho. Coitadinho! Pensa que vou engolir sua bondade e suas pílulas. É mesmo um coitado que se veste de branco o ano todo e agora deve estar com outros de sua laia na sacada de um hotel de luxo. Exibicionistas de merda! Seu dinheiro não vai impedir seu fim.

Se eu ficar aqui, bem quietinha, junto com minhas coisinhas, será melhor. Mas não verei aqueles (des)crentes com cara de bunda quando o Fim chegar. Acho que vou descer e acompanhá-los em seu cortejo fúnebre inconsciente. Não vou me vestir de branco como eles. Nem de preto, como seria próprio para a ocasião. Vou exatamente como estou agora: nua. Não precisarei exibir vestimenta alguma para o Fim. Ele já me tem assim, de corpo e alma nus. E ele me ama e me escolheu como seu arauto. Os outros não sabem disso, mas sou sua favorita. Não serei poupada, porque quero me imolar. O Fim me merece tanto quanto eu o mereço. Logo seremos um só.

A multidão me absorve feito um grão de poeira. Uns velhos se escandalizam com minha nudez. Rio alto. Agora é minha vez de rir de vocês, que não me ouviram. Desgraçados! Eu sei o que vai acontecer, eu sei o que vai acontecer! Loucos são vocês, desgraçados! Sigo protestando em silêncio contra tudo deste mundo falido.

Sei que não haverá nenhuma explosão, maremoto ou coisa parecida. Será como o apagar de uma luz. Como se o planeta fechasse os olhos e não mais os abrisse. Rápido, surdo, indolor. Feito o despertar de um sonho. Isso mesmo, estamos todos mortos e sonhamos com a vida. Despertaremos em poucos minutos. Voltaremos à nossa condição de nada. Nada. É isso que somos.

Contagem regressiva. Um rebanho inteiro desgarrado é o que vejo. Pensam que haverá uma nova chance, um ano novinho em folha para limparem suas fichas. E depois a louca sou eu! Cinco... Quatro.. Três... Vou fechar os olhos. Até nunca mais.

Etéreo

Outra vez essa chuva que não sei se vem do céu ou de dentro de mim. Cada gota é uma lágrima estúpida, uma lembrança agridoce que açoita minha pele – sangro até a morte na esperança de renascer nos seus braços (mas seus braços jamais me acolherão, porque você não quis renascer nos meus).

Você se lembra daquele beijo? Chovia. Exatamente como hoje. Naquela noite nossos corações trovejaram a sentença de morte enquanto os lábios selavam uma fração de vida. Chovia muito e eu chorei em silêncio o meu escândalo.

Eu poderia ter erguido meu cálice e brindado com meu sangue o seu êxtase. Poderia ter erguido montanhas e altares para oferecer-lhe minha carne em sacrifício. Ou quem sabe até mesmo ter criado o mundo em sete dias, sete noites, sete vidas – ainda assim não seria o bastante. Nunca é o bastante.

Sei que é você. Solidão que toma forma no delírio da minha insônia. Sei que é você que me sorri na tela inútil da televisão na madrugada. São seus os braços que se abrem zombando dos meus lençóis vazios da quarta-feira. É seu o riso insano que a chuva derrama sobre os telhados noite adentro.

Daqui a pouco deve amanhecer. Tem que amanhecer. Levarei flores para você. As últimas. De plástico. Iguais aos sonhos que seus olhos de neon me venderam um dia.

Desejo

Porque era noite de sábado, ele veio. Chegou sem o fulgor da primeira vez, com um sorriso meio desfeito no canto da boca e o mesmo hálito de leite servido pela mãe. Gostaria que ela tivesse me visto assim, no momento em que abri a porta. Ela decerto recomendaria a minha excomunhão, mas não tem influência ou tempo suficiente para isso. Está ocupada demais agora preparando a casa para mais uma reunião anual dos parentes.

Não esquecerei a sua expressão de desgosto ante meu lingerie preto. Seus olhos mortificados condenaram-me ao fogo do inferno enquanto meu corpo ardia feito as velas que crepitavam pela casa. Sorri com uma timidez ensaiada, mas não fiz a menor menção quanto a cobrir o corpo, o que o deixou confuso, e isso me fez arder ainda mais. Eu me despia de todos os pensamentos enquanto ele tirava seu casaco e seguia para a cozinha. Era sempre assim, e sua previsibilidade tornou tudo mais fácil para mim.

A mesa estava meticulosamente posta para nosso jantar de aniversário. Ele pediu que eu me vestisse, mas ignorei sua voz hesitante. Acomodei-o à mesa e servi-nos a melhor refeição que compartilháramos em todos esses anos. Ele comia devagar, mastigando bem cada porção. Bom menino. Não havia pressa alguma. Eu queria mesmo aproveitar cada minuto daquela noite perfeita. Acho que ele falava sobre alguma coisa sobre um novo programa de computador, mas eu só conseguia registrar os movimentos suaves de seus lábios e mãos, como se tudo estivesse em câmera lenta e sem som. Perguntei se o jantar estava a seu gosto, e ele respondeu que sim; disse a ele que a sobremesa seria servida no quarto e ele disse que preferia comer ali mesmo. Ignorei-o mais uma vez. Levantei-me e disse que havia lhe preparado uma grande surpresa. Seu espírito de menino o traiu, e ele me seguiu feito criança, segurando a minha mão.

Empurrei seu corpo magro contra a cama e lancei-me sobre ele. Beijei sua boca macia lentamente enquanto alcançava as algemas sob o travesseiro. Prendi seus punhos finos sem grande dificuldade. Ele tentou se levantar, mas não conseguiu se desvencilhar do meu corpo. “Acalme-se, meu bem; estamos só brincando, não acontecerá nada que eu sei que você não gosta”. Não, não faria sexo como ele. Dei minha palavra. Ele me chamou de louca e achou melhor brincar comigo.

Busquei uma pequena caixa. Sim, eram meus brinquedos. Plumas, loções, massageadores... Não, não quero usá-los hoje. Retirei uma pequena navalha. Sentei-me sobre o seu quadril. “Calma, querido, não há o que temer”. Rasguei suas roupas. O som de pano rasgando me entorpecia e eu ria e batia palmas. Um dia me disseram que cortes de navalha não sangram. Seria verdade? Cortei seu mamilo. Que coisa, saiu um pouco de sangue. Acho que ele gritava, mas novamente aquela sensação de slow motion me possuiu. Cortei seu peito mais duas ou três vezes. O sangue brotava e parecia mudar de cor num espectro curioso e vivaz. Passei a navalha por sua virilha e aquele líquido furta-cor escorreu lento e viscoso. Eu ria alto, cada vez mais alto; meu riso histérico e libertino se juntava ao choro distante dele. “Chega de brincar”, eu disse. Retirei da caixa um punhal. Ergui-o triunfante sobre seu peito. “Adeus, querido”, eu murmurei. A lâmina começava a transpor sua pele quando um barulho estridente me desconcentrou totalmente... O despertador sempre toca nessas horas.

Crise

Por que não simplificamos as coisas? Já sabemos como isso vai terminar... Corrija-me se eu estiver errada.

Você não dormirá. Ficará se virando de um lado para outro na cama, remoendo tudo o que não foi dito ou feito antes de nos deitarmos. No meio da madrugada, você se levantará. Abrirá o guarda-roupa. Pegará algumas peças furiosamente, e certamente a escolha não será ao acaso. Eu acordarei com o ruído da sacola. Ainda sonolenta, me sentarei na cama e perguntarei o que está acontecendo. Claro que eu já sei. Mas não me acorrerá nada melhor para começar a conversa. Passaremos alguns minutos, talvez até mesmo horas, discutindo nossa aparente falta de tempo, a falta de dinheiro, a falta de problemas. Você sairá dramaticamente de casa. Eu chorarei até que amanheça.

Você voltará para a casa da sua mãe e eu voltarei para o colo da minha. Durante dias, seu cheiro almiscarado, impregnado no quarto, me enlouquecerá. Seus olhos de absinto me seguirão pelas ruas em rostos desconhecidos. Sua boca não beberá o café forte que farei em excesso todas as manhãs. Minhas amigas terão que suportar minhas crises de choro no meio de um dia cheio de trabalho.

Você ouvirá todos os seus discos. Relerá toda a sua coleção de revistas de futebol e sacanagem. Discutirá com sua mãe porque ela não faz o café ao seu gosto. Estranhará a cama de solteiro. Sentirá falta do meu perfume no travesseiro. Mas ainda assim fingirá uma pontinha de prazer ao contar para os amigos que abandonou a megera com quem se casou.

Eu telefonarei para você. Você não me atenderá. Eu tentarei ligar para algum homem interessante, cujo telefone me será dado por alguma amiga solteira. Desligarei antes que ele atenda. Você telefonará para meia dúzia de mulheres, mas talvez nem as encontre – bastará saber que estão todas lá, à sua disposição. Afinal de contas, não sou a única mulher no mundo.

Depois de uma semana, mais ou menos, cansados de fingir que podemos viver sem o outro, marcaremos um encontro em um restaurante. Eu irei com um vestido recatado e a maquiagem impecável. Você irá muito bem barbeado, vestindo aquela camisa que eu adoro. Conversaremos com uma formalidade ensaiada. O almoço terminará na nossa cama. Você voltará para casa e viveremos felizes para sempre. Ou até a próxima crise.

Percebe quanto tempo perdermos? Quanto desgaste! Ao invés de cumprir todo este roteiro, sugiro que passemos logo ao final. Vamos deixar essa bobagem de lado. Venha para a cama, ande logo. Aposto que temos coisa melhor a fazer do que discutir o que quer que seja.

Coletivo

Quarenta pessoas. Talvez um pouco mais, por causa do horário. Um amontoado de gente se espremendo dentro do coletivo.

Cabelos naturalmente pretos, castanhos, loiros e ruivos juntam-se a outros cujas cores é impossível definir desde a invenção das tinturas. Cabelos secos, molhados, oleosos. Quilos de caspa. É possível que haja piolhos.

Cada cabeleira emoldura um rosto estranho. Faces igualmente compostas por um par de olhos, nariz e boca, mas com feições únicas, indecifráveis. Alguns rostos não foram lavados esta manhã. Outros são demasiadamente maquiados todas as manhãs. Sardas, manchas, espinhas, cicatrizes. Pêlos brotando de ouvidos e narizes. Dentes limpos, dentes sujos, dentes cariados. Bocas sem dentes. Cheiro de bala de menta. Mau hálito.

Os corpos se tocam intencionalmente ou não, dependendo da índole dos passageiros e do movimento do veículo. Corpos jovens e velhos, femininos e masculinos. Aglomerados de células carregando um número incontável de vírus, bactérias e fungos, que promovem entre si um intercâmbio voraz. Cheiro de perfumes, loções, desodorantes, suor, urina, flatos. Cheiro de gente.
Dezenas de mãos disputam um lugar nas barras. Mãos calejadas, sujas e limpas, pequenas, grandes. Umas, cheias de anéis. Outras mostram marcas de alianças tiradas momentaneamente ou para sempre. Centenas de unhas. Micoses, esmaltes, sujeira, cera de ouvido, pele de amantes.

Uns dormitam com as cabeças apoiadas nos vidros sujos das janelas. Um homem deixa a passageira próxima perceber sua ereção. Uma mulher sentada oferece seu decote inoportuno. Um casalzinho se beija no banco de trás. Alguns seguem calados. Uma criança chora. Velhos rezam e resmungam. Alguém fala ao celular. Um grupo de jovens conversa alto sobre qualquer coisa sem importância. E a Babel segue, sacolejando avenida afora.

Aguardo sua chegada junto a mais uma dúzia de indivíduos. À medida em que o ônibus se aproxima, formamos uma fila por ordem de chegada ao ponto – pode ser que não haja lugar para todos. O motorista pára um pouco adiante, desorganizando nossa pequena sociedade. Alguns descem indiferentes. Outros parecem aliviados. Subo com dificuldade e tenho que me contentar com um espaço ínfimo nos degraus do coletivo. Compreendo a indignação de uma pessoa que ouvi dizer que jamais adentrará novamente aquela jaula sobre rodas. Mas, afinal, sou só mais um exemplar desta espécie de bicho.

Amanhecer

Despertou serena como despertam as flores amadas pelo sereno. Sentiu os primeiros raios de sol acariciando-lhe a pele pela cortina entreaberta, que dançava ao sabor da brisa de primavera. Desabrochou um sorriso enquanto se espreguiçava entre os lençóis rosados.

Levantou-se da cama sem a pressa cotidiana. Flutuou pelo quarto rendido ao seu semblante – chegava ao fim a lamúria das paredes, o lamento dos rodapés, o desalento do tapete macio, que agora amparava tão-somente aquela dança matinal.

De repente não havia mais relógios, calendários, agendas, campainhas, telefones, compromissos ou comprometimentos. Havia apenas o banho morno, acolhedor; havia as gotas cristalinas mimando seu corpo, a docilidade de suas mãos reconhecendo o rosto, o colo, o ventre, os pés.

Escovou os cabelos com calma maternal. Reviveu cada minuto da noite anterior (teria sido um sonho?), saboreando outra vez cada gesto, cada palavra, cada gole do vinho tinto meticulosamente escolhido para a ocasião. Corou ao relembrar a intimidade do olhar.

Não pôde resistir ao convite do espelho que lhe fitava a exuberância. Viu-se outra vez menina, escolhendo um batom para pintar seu dia, distinguindo suas formas sob o roupão macio, fazendo despertar a divindade adormecida. Viu-se outra vez mulher, brincando por quintais imaginários, roubando frutas inventadas por seu paladar infante, brincando de roda com a vida.

A casa tornou-se incrivelmente iluminada. Brotaram cores de todos os cantos, derrubando o reboco soturno do inverno. Seu riso preenchia cada cômodo, enquanto ela girava com os braços erguidos pelo corredor.

Naquela manhã, ela nascia outra vez. Lá fora, os carros corriam, os prédios se enchiam, as multidões se formavam e se dissipavam, as ruas continuavam a abrigar a miséria, crianças choravam, adultos praguejavam – mas nada disso importava naquela manhã. Ela nascia outra vez. Só porque brilhara nos olhos de alguém.

Palavras

Não me peça desculpas. Não se explique. Não me pergunte sobre o meu dia. Não me faça elogios. E se acaso eu lhe fizer alguma pergunta, me responda sem palavras.

Hoje quero conversar com o seu silêncio. Quero a palavra não dita. Quero a voz da pele, a súplica dos poros, o canto do cheiro. Não precisamos de palavras quando nossos enigmas pedem solução natural, muda, definitiva.

Deixe que suas mãos se entendam com as minhas. Deixe que elas se guiem. Deixe que se percam. Que nossos dedos se rendam gentis e teçam juntos a bela renda da nossa madrugada sem fim. Que nossas unhas demarquem caminhos e paragens. Não quero saber o que lhe agrada. Deixe que seus pêlos eriçados me contem. Ouça minha pele clamando pela sua.

Quero descrever minha alegria num beijo, feito menininha levada. Quero apenas ser levada. E não quero ser perguntada para onde. Quero ouvir a música que vem de você. Quero dançar com as borboletas que voarão do meu corpo ao seu toque. Quero tocar o céu.

Quando chegar a hora de partir, não se despeça. Não direi adeus, tampouco. Não nos falaremos ao telefone, porque as palavras parecem fazer troça da minha falta de jeito nesses momentos convencionais. Sou uma muda decidida. Mas estou certa de que minha pele continuará indefinidamente sussurrando aos seus ouvidos e seu cheiro me chamará a todo instante. São essas as nossas vozes, meu amor.


(Texto publicado no Jornal Cultural "Conhece-te a ti mesmo", edição nº 89 - julho/2008)