Nunca gostei de caminhar sob o sol. Mas, às vezes, grandes prazeres nos custam pequenos sacrifícios, e é por isso que me disponho a percorrer ruas e avenidas sem fim antes que a noite venha acertar contas antigas comigo.
Sei que, a essa hora, ela já deve ter lavado as louças do almoço. O marido deve estar assistindo ao último bloco do noticiário esportivo na televisão enquanto ela apressa as crianças. Pede a ele que as deixe na escola, não está disposta a sair de casa por causa do calor. O marido concorda com qualquer coisa que ela diga enquanto ouve o resultado da última partida de seu time de coração. Ela sorri, mas ninguém vê.
Sigo pelas ruas do centro da cidade, coalhadas de gente, mas ninguém me percebe. Melhor assim. Não me interessa que os passantes notem minha presença. Logo alcanço o bairro residencial e aquela onda de pessoas se transforma numa ilha de paz.
Debruçada na janela, ela traga um cigarro barato comprado de manhã, junto com o pão. Os dedos longos, com unhas bem pintadas de um tom de rosa incomum, conduzem mecanicamente o filtro amarelo aos lábios.
Ela me espera, e ninguém mais sabe disso. Dentro de alguns segundos, ela acenará discretamente para mim, indicando a porta previamente destrancada. Eu entrarei e, sem que nenhuma palavra seja dita por mim ou por ela, seremos tomados pela luxúria vespertina e habitual. Eu sequer perceberei o cheiro do cigarro em seus cabelos; talvez ela sinta meu hálito de wisky. É provável que alguém nos observe pela janela entreaberta, mas não nos importaremos. Não há tempo para essas preocupações pudicas. Não há tempo para mais nada senão para o nosso gozo secreto, sagrado. Eu me vestirei sem pressa ou remorso. Ela me observará sem revolta ou paixão. Ganharei novamente a rua e ela terá ganhado seu dia.
Ela agora está a poucos metros de mim, já posso ver seu busto firme sobre o parapeito. Consigo distinguir suas feições com cada vez mais clareza, e isso me perturba um pouco. Num movimento brusco, ela joga o toco de cigarro na rua e olha em minha direção. Tento desviar o olhar, mas é tarde demais. Ela fixa o olhar em meu rosto por um momento ínfimo, criando uma intimidade que jamais tivemos. Passo por sua janela enquanto ela fecha as cortinas.
Mais adiante, em uma outra janela, uma moça loira tamborila dissimuladamente os dedos sobre o parapeito. É um sinal secreto para mim. Mas isso ninguém nunca vai saber.
domingo, 3 de agosto de 2008
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