domingo, 3 de agosto de 2008

Pilar

Tenho medo dos santos que me vigiam nas igrejas. Tenho medos das mãos inertes de um gesso tingido de sangue e fé dos que deixam esmolas e velas e rezas. Tenho medo do olhar coercitivo do alto do altar.

No confessionário, os ouvidos de um homem igualmente pecador se alimentam dos relatos dos que buscam algum tipo de redenção instantânea. Não entendo por que Deus precisa de intermediários. Não entendo esse perdão dado em troca da simples auto-delação.

Ainda recém-nascida, mergulharam-me na pia batismal para me livrar do pecado original. Alguns anos depois, catequizaram-me como fizeram aos índios, e esfolaram minha crença natural. Deus entrou no meu corpo pela hóstia que me mandaram engolir sem mastigar. A Igreja é santa; o Papa decreta o pecado; tem que rezar o terço; não pode comer carne na Sexta-Feira da Paixão. Engoli sem mastigar.

Os santos me vigiam de cara feia. Tenho medo. Uma velha repete uma infinidade de ave-marias sem pensar. Não sei se devo sair daqui agora. Será que ela rezaria por mim? Não consigo rezar como me ensinaram. Converso com Deus a meu modo, não sou boa para decorar rezas. As ladainhas me enlouquecem. Tenho medo.

Debaixo das tábuas estão enterrados os ricos. Os pobres que se juntem à terra. Na hora da missa, os pobres pisam o túmulo dos abastados numa revanche inconsciente. Jesus foi pobre. Não entendo por que a Igreja gosta tanto dos ricos.

No teto, há um cordeirinho sobre a cruz. Se eu me mexer, ele vai para debaixo dela. Não quero perturbar o cordeirinho. Ele me observa em paz, não tenho medo dele. Fico quietinha. A velha foi embora. Ninguém reza por mim. Mas o cordeirinho me observa em paz.

Quero chorar, mas minhas lágrimas não são bonitas como as contas de cristal que pendem do teto. Tenho vergonha do meu choro fosco. A igreja é cheia de ouro, não quero manchá-la com meus pecados tolos.

Daqui a pouco é hora da missa. Muita gente vem rezar, e eu acho isso tão bonito. Quando eu era criança, minha avó sempre me levava à missa. A igreja ficava cheia e eu passava mal. Agora a igreja ainda está vazia e não me sinto bem. Os santos me censuram. Quero ficar perto da minha avó. Quando ela reza, fecho os olhos e me sinto tão bem. Minha avó fala direto com Deus. Mas ainda gosta do que o padre diz.

Meu Deus, me deixa ser índia outra vez.

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