Não sei dizer se tranquei a porta, ou se sequer a fechei. Minha partida era urgente. Tardia, é verdade, mas urgente como nunca coisa alguma foi em minha vida. Eu só queria deixar para trás tudo aquilo que não existia mais em mim.
A noite ardia em meu rosto. A vontade de arder em seu corpo me consumia a cada passo. Não avisei que iria, mas sei que ela me receberá. Ela tem que me receber. Há oito anos ela esperava por este momento. Há oito anos ela tentava me despertar. Que bom que ela não desistiu. Não suportaria não tê-la agora.
A mala pesa tal qual meu remorso por não ter partido antes. Queria ter tido força para abraçá-la quando seu corpo me chamava em silêncio. Queria ter tido a hombridade de assumir minha fraqueza em face deste amor tão devotado. Mas sua força e paciência me trouxeram até aqui. Ela sempre foi minha. Finalmente posso me doar com a mesma ternura e abdicação.
As esquinas me atormentam. Tentam me confundir. Mas nada me desviará do nosso destino. Um táxi quase me atropela quando atravesso a rua no quarteirão da sua casa. Maldito! Mas nada será capaz de atravessar nosso caminho agora.
Toco a campainha. Por que não me atende? Insisto. Sem resposta, lanço contra a porta toda a minha agonia. Grito seu nome. O que fazer para que me ouça? Ela sempre adivinhou meus pensamentos, será possível que não percebe minha presença? Um vizinho, irritado com o meu desespero, acaba de me informar que ela partiu há pouco. Não sabe para onde ela foi. Não sabe se voltará. Por que não me esperou? Por quê?
Recordo cada palavra que ela me disse, cada gesto que me dirigiu, cada beijo que abençoou meus lábios. Um dia, ela me disse que vivemos em uma outra dimensão. Que há um lugar só nosso, imaculado. Ela disse que nosso amor não é deste mundo. Mas eis que estou aqui, neste mundo, e preciso estar com ela. Só me resta esperar que ela desista de partir. Estarei aqui, à sua porta, esperando que um carro desses que cortam a madrugada a devolva para a vida que deveria começar agora.
domingo, 3 de agosto de 2008
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