Reviu pela última vez as fotos. Deixou-as de lado. Quis telefonar para ela, pedir um conselho, perguntar pela tarde que caía, ouvir sua voz de anjo, dizer que estava a caminho, ficar em silêncio. Vasculhou o quarto para se certificar de que nada ficava para trás. Pensou em pegar uma foto, aquela em que sorria ao lado do menino.
Quis se desfazer das cartas. Abriu um por um os envelopes. Releu cada palavra. Quis telefonar para ele, dizer que ainda estava lá, perguntar como foi o dia, ouvir sua risada fácil, falar coisas sem compromisso com a razão. Recolheu as cartas. Guardou-as novamente. Desejou ter ao menos uma fotografia.
O menino dormia, melhor assim. Desejou que tudo não passasse de um sonho ruim. Quis a serenidade da criança adormecida. Quis adormecer e não mais despertar.
Não conseguia odiá-lo. Desejou que o amor adormecesse. Queria adormecer e despertar ao lado dele. Queria apenas adormecer ao seu lado.
Sentia-se esgotado. Precisava das mãos dela, da calma que só ela desenhava com os dedos em seu rosto, do gosto de beijo roubado que ela pintava nos lábios. Precisava dela. Pertencia a ela. Sentiu-se estúpido por tê-la deixado partir aquela noite. Devia ter dito a verdade. Devia ter confessado sua fraqueza. Ela merecia mais que um beijo.
Lembrou-se do último encontro. Quis saber a verdade, mas não havia nenhuma verdade a ser dita. Não conseguia compreender aquele amor que ele declarava mas não vivia. Tentou fugir antes que se ferisse ainda mais. Não pôde fugir do beijo terno que ele derramou sobre seus lábios ante a lágrima que não pôde conter. Quis partir sem olhar para trás. Quis partir noite adentro sem ter que amanhecer.
Sentiu-se estranhamente liberto ao abrir a porta. Aos poucos, os passos vacilantes ganharam ritmo e traçaram o caminho já conhecido. Percorreu os quarteirões com sofreguidão, a despeito do peso das malas e das mágoas que trazia consigo. Certamente ela estaria em casa. Ela tinha que estar em casa, a casa à qual ele sempre pertencera.
Chamou um táxi. Vasculhou o quarto para se certificar de que nada ficava para trás. Pensou em levar as cartas. Sentiu-se sobremaneira vazia ao deixar a casa tão cheia de recordações. Deixou que o motorista acomodasse as malas no veículo. Partiu sem se despedir da casa que ele nunca habitou.
Era tarde quando um táxi dobrou a
esquina e quase atropelou um homem
que corria, cheio de bagagem.
A passageira não percebeu
a iminência do acidente,
porque estava totalmente
absorta na conferência de sua passagem.
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