Não venha me falar sobre o seu dia ou sobre sua noite mal dormida. Não me interessam seus sonhos; não pertenço aos seus pesadelos. Não me conte seus planos. Não há nada que eu possa fazer para sabotá-los, tampouco quero trabalhar a seu favor.
Já estou aqui há tempo demais; não pertenço a este ou a qualquer outro lugar que você conheça. Estou de saída e dispenso sua despedida.
Não quero saber o que sua mão direita omitiu à esquerda. Poupe-me da sua caridade de fim de semana. Não me honre com sua castidade ou sua entrega. Não quero saber quantos se servem de você. Se você faz tanta questão de me oferecer alguma coisa, que seja o seu silêncio, a sua morte a cada segundo, seu desprezo.
Você diz que me conhece melhor que eu mesma. Você quer viver através de mim. Você quer que eu seja você e me arrependa dos seus erros. Você quer que eu conserte seu passado despedaçado. Você me cobra um futuro que é seu. Acontece que a minha dor é só minha. O meu gozo é só meu. Minha vida deveria ser só minha. Não suporto mais ver você nos meus espelhos. Devolva-me o meu reflexo, o meu inferno, o meu paraíso. Deixe meus sonhos em paz. Deixe meus pesadelos debaixo do meu travesseiro. Nada aqui pertence a você.
Não faça essa cara de vítima. Não vou assumir o papel do carrasco mais uma vez. Não ofereça seu rosto ressentido à agressividade da minha mão. Não tente me comover com essas lágrimas fáceis. Não vou prostituir meu interesse à sua mágoa. Nunca quis você acima ou abaixo de mim. Se não pode estar exatamente ao meu lado, faça-nos o favor de sumir.
Já é tarde, eu sei. Não é hora para se falar dessas ou de outras coisas; talvez nunca seja a hora para se falar de certos assuntos. Vai ver é só um delírio meu, como sempre. Vai ver você tem razão. Como sempre.
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